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Agruras de um velho escritor

Como escritor ele nunca se achou o rei da cocada preta, mas, com o tempo, começou a enxergar cada vez com mais clareza os …

Como escritor ele nunca se achou o rei da cocada preta, mas, com o tempo, começou a enxergar cada vez com mais clareza os próprios defeitos, as próprias limitações. Isso poderia ser uma vantagem — nada como saber quem é o inimigo, qual a posição dele. O que preocupa é que começa a se conformar com esses defeitos, com essas limitações. Chegado a esse ponto, das duas, uma: ou pendura as chuteiras ou, no desespero, parte pro pau. Qualquer escritor digno de ser chamado de escritor é como o soldado desaparecido em ação. Impossível curtir as regalias do aposentado.

Dicionário do mau digitador

oOo Reorgasminizar. Voltar à vida certinha com a patroa. oOo Artuação. Multa por poluição atmosférica. oOo Verbalamanete. Quando se usa palavras mortíferas. oOo Durantre. É aquele tempo em que a gente fica no meio de qualquer coisa. oOo Elabortação. Planejamento de um aborto. oOo

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Sou um senhor sério, com barba branca e tudo. Uma vez até, na fila do açougue, no supermercado, um menino cochichou pra mãe: “É este o velho?” Fiquei na dúvida: o menino me confundia com o Papai Noel ou com o Velho do Saco? Mas, Papai Noel ou Velho do Saco, não importa, os dois são gente séria.

Agora, entre ponderadas reflexões sobre o grave destino do bípede implume, me interesso por futilidades das mais bestas. O vento levantou a saia da Elizabeth Hurley? Quero saber de que cor era a calcinha. Sartre e Simone passaram uma semana em São Paulo sem tomar banho. É verdade que não usaram nem a toalha de rosto? Paris Hilton, depois de brigar com sua melhor amiga, fez um programa de tevê pra escolher novas e eternas amizades. Não resta nenhuma dúvida, o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus.

Eu tinha um barbeiro que não se conformava com minhas barbas brancas. Sempre me dizia que se eu as rapasse ia ficar “bem novinho”. Vai ver, eu devia ter seguido o conselho. Mais, talvez eu devesse ter pintado os cabelos também. Total, de que me serve essa seriedade toda, além de ser confundido com Papai Noel ou o Velho do Saco?

Indústria da multa

Ouvi muita gente argumentando que os radares deveriam ter uso educativo, não serem uma forma traiçoeira de ganhar dinheiro. Mas peralá: se as placas de trânsito dizem que a velocidade máxima é 60 quilômetros e o sujeito passa a 90, há traição? E que papo é esse de educação? Todo motorista não fez autoescola, não sabe direitinho o que pode e o que não pode fazer e onde? Por que na Alemanha e nos EUA se considera educativo justamente atingir o bolso do motorista? Na Austrália, há dias, como nos feriadões, em que a multa é cobrada duas vezes.

Programa de recuperação

Deu no jornal: 31 comissões permanentes do Congresso são presididas por 11 parlamentares investigados e processados pelo Supremo Tribunal Federal. Os programas de recuperação de ex-presidiários têm pouco sucesso. Mas os de recuperação de pré-presidiários têm um sucesso fulminante: os programados nem vão presos depois.

Folguedos acadêmicos

Joan Bonals Picas — Picas? Sim, senhor, Picas —, num ensaio sobre trabalhos em grupo, garante: “Um membro ocupa a posição de ausente quando fisicamente não está no lugar onde a equipe está reunida. Nesta posição estaria, por exemplo, o integrante que está doente, o que chega tarde ou abandona momentaneamente ou permanentemente a reunião”. Imagino que não há problema com os membros que estiverem espiritualmente presentes, mesmo estando em motéis com as mulheres de outros membros, na hora da reunião. Imagino também que os membros que abandonaram a reunião permanentemente devem ter morrido, por não conseguirem acompanhar a sutileza desses raciocínios.

Assim caminha a humanidade

Em Capri, o tamanco foi abolido por lei, em 1960. Continua abolido até hoje. Nenhum político se elegeu prometendo restabelecer a liberdade de cada um torcer o tornozelo como quiser. 

Sinal dos tempos

A coisa anda tão confusa que até bobo da corte anda ganhando busto de bronze nas praças.

Autor

Ernani Ssó

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