Encontrei, faz poucos dias, nos meus guardados, a revista Veja comemorativa aos 100 anos de Proclamação da República que noticia o acontecimento como se estivesse sendo escrita, editada e publicada poucos dias depois de o mulherengo Deodoro da Fonseca ter mandado Dom Pedro II para a terrinha. Li inteira a edição, incluindo até um especial sobre os bancos brasileiros, que me relembrou que o idolatrado Banco do Brasil foi liquidado em 1829, 11 anos depois de D João VI tê-lo criado: os gastos da Coroa causaram o fechamento das portas da primeira versão do BB.
A revista foi feita unindo o trabalho de jornalistas ao de historiadores e, mesmo que pareça até modesta hoje, com erros de revisão que faz com que no mesmo texto apareçam balisar e balizar, estilo um tanto colegial e graficamente sem graça, esta Veja que tinha José Roberto Guzzo como diretor de redação pode ser considerada uma bela peça da imprensa.
Uma das matérias mais interessantes tem por título “Festança sobre o vulcão” e diz respeito ao muito citado mas pouco conhecido baile realizado no então recentemente inaugurado Palácio da Ilha Fiscal. O festerê, uma homenagem ao cruzador chileno Almirante Cochrane e seus 300 tripulantes, que teria vindo ao Brasil numa visitinha de boa vizinhança, custou 250 contos de réis, uma fortuna que representou 10% do orçamento da província do Rio de Janeiro previsto para 1890.
A ceia mobilizou 90 cozinheiros, 150 garçãos, 800 quilos de camarão e 258 caixas de vinho e espumante, entre outros acepipes e beberagens. Afinal, eram 4.500 convidados do então poderoso Visconde de Ouro Preto. O que queria este Golbery d’antanho? Mostrar, com tanta ostentação, numa cidade de povão mergulhado em falta de água, doenças e miséria, que as ideias republicanas eram uma besteira e que o Império era uma instituição muito sólida. Como se veria depois, foi um tiro no pé e o rebu virou símbolo da falência de uma época e sua administração: a tomada do poder pelos republicanos veio, meio no atropelo, mas veio. E da passagem do imperador discreto que preferia ler sobre ciência às festas suntuosas, ficou uma lista bizarra de objetos achados terminado o Baile da Ilha Fiscal: coletes de senhoras, ligas e dragonas. Além de muito úteis lencinhos de cambraia.
Hoje, quando vejo as chamadas na Globo para o filme-exaltação de Lula, a safadeza do governo em enviar um dinheiro para o Haiti que faz falta ao Brasil, que usa artifícios como bolsa-família a fim de maquiar a fome endêmica, a cara de pau do advogado-geral da União ao negar que o presidente está em aberta campanha eleitoral, e o ministro da Justiça, Tarso Genro, voando com meu dinheiro para tentar garantir vaga no Palácio Piratini, fico saudosa de um tempo que não vivi. O tempo em que um cardiopata e um grupo de inconformados resolveu dar um basta no poder exercido por um chefe simpático, que deu muitos presentes a seu povo, como a abolição da escravatura, mas que, egoísta e vaidoso, preferia a sua zona de conforto a sanar de fato a terra em que nasceu.
