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Alguns desejos impedidos

Por Flavio Paiva

Nesta época de restrições, sejam elas de encontros, financeiras, de deslocamentos para determinados lugares, de frequência a restaurantes, shows, teatros, cinemas e outros, talvez um dos itens que esteja mais em alta sejam os desejos.

Não que já não estivessem, pois o ser humano é por natureza um ser desejante e a maneira como nossa sociedade está estruturada estimula, em sua maioria, o desejo. Claro, há ainda os desejos mais básicos, mas na verdade muitos se encontram no grau das necessidades, como alimentação, abrigo, etc.

Dessa forma, já estávamos com o desejo totalmente inserido no dia a dia e na cultura. E vários desejos eram impedidos de serem atendidos por restrições, fossem culturais, orçamentárias, de tempo ou fatores ainda mais extemporâneos.

A diferença é que o que estamos experimentando agora é um acumular de desejos em mais alto grau, exigindo que encontremos maneiras diferentes de satisfazê-los ou senão, atenuá-los. Em função das restrições a que me referi no início, em função de terem aumentado drasticamente, igualmente o número e nível de desejos represados subiu violentamente. 

Analiticamente, é isso. Mas estamos falando de pessoas que têm sentimentos. Assim é que sermos submetidos a tantas e tamanhas limitações geram um aumento no nível de ansiedade de forma quase natural. Não falo de teoria minha, os serviços de saúde mental tiveram procura/necessidade crescendo de forma exponencial, justamente pela carência de atendimento dos desejos, bem como pelo acréscimo a isso de incertezas. Então, sim. Minha visão é de que vivemos um caldeirão efervescente, quase uma panela de pressão em função disso. 

Não quero minimizar nem desvalorizar os métodos e esforços de pessoas e organizações no sentido tanto de encontrar outras maneiras de atender seus desejos, bem como de esforços no sentido de mudança de mindset e ainda uma busca racional de entendimento da situação, que ela deve de uma certa forma ser passageira (porque de outra forma não, não acredito que voltemos a ter exatamente a mesma vida de antes), mas ainda para piorar não se sabe o tamanho desse período, qual vai ser sua duração.

Então o que estou dizendo que é algo desesperador? Não. Às vezes, em alguns momentos sim, as pessoas podem entrar em um grau de ansiedade muito elevado. Mas não. Existem sim alguns caminhos para tentar conviver da melhor forma possível com essa situação. Mudança de mentalidade, compreender que o que antes era totalmente normal hoje é impossível e pronto? Pode servir para algumas coisas, mas o caminho não é tão fácil. Requer dedicação, muito esforço, meditação, diálogo, reflexão, apoio em termos de saúde mental, identificação de quais são no momento as maneiras que possam ajudar a enfrentar esse cenário adverso. Na verdade, foco nisso. E como eu disse, dedicação. Interesse. Porém, sem entrar em desespero porque a humanidade já atravessou muitas e muitas crises e, afinal, sobreviveu. Então, chegaremos do outro lado. Mas para que cheguemos de uma maneira mais saudável quanto possível, foco nisso tudo. Porque assim como a questão financeira, a questão de saúde mental é absolutamente prioritária neste momento.

Autor

Flavio Paiva

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