Indicar amigos para cargos é natural e, a menos que a função exija concurso, não configura contravenção. Trata-se de saber escolher os amigos. Apenas crédulos empedernidos tendem a aceitar a inocência de comandantes cujos subordinados de longa data dedicam-se a estripulias pecuniárias sob sua barba. Casos do gênero remetem a duas hipóteses: ou o chefe era conivente com a bandalheira ou estava alerta como um coroinha na missa das seis.
Integrar o primeiro escalão exige qualidades que vão além da honestidade. A lista de predicados inclui perícia ao manusear a caneta na folha de nomeações. Melhor ainda é adotar ao longo da vida certos critérios na hora de definir quem está autorizado a se apresentar à mesa no almoço de domingo. Amigo é coisa para se guardar, por isso precisa ter qualidade. Homens públicos vêem-se às voltas com miríades de supostos irmãos de alma. A credencial dá acesso a gabinetes e concede ao portador salários generosos.
Cabe ao candidato a padrinho rejeitar aliados de ocasião cuja folha corrida não seja absolutamente limpa. Melhor subtrair a alguém o selo de garantia que ter de negá-lo três vezes antes de o sol se pôr. Flagrados em pleno exercício da tunga, velhos parceiros dispensam a necessidade de inimigos. Tornam-se emblema, ainda que o protetor nada tenha a ver com o delito.
A cena política receita fórmulas para a vida civil. Amigos são raros. A popularidade costuma cair no ritmo do saldo bancário. Poucos permanecem quando os abutres iniciam a vigília. Aprender essa lição nos poupa de dissabores. E talvez nos salve o emprego um dia.
Contém 1%
Corrupção é como vício: difícil de controlar. Profissionais da bebida sabem a hora de fechar a conta e passar a régua. Doutores em propina identificam com clareza o limite de zeros no cheque. Roubar muito chama a atenção. “Um por cento não dá bandeira”, ensina-lhes a voz interior. Afanar com parcimônia é atributo dos pacientes. Tal qual predador à espreita da presa, o especialista não se precipita ao dar o bote. Tampouco se atira ao troféu com excessivo entusiasmo. Sabe que a afobação pode custar-lhe a próxima refeição ou, em casos extremos, a vida.
Homens de personalidade complexa poderiam vir com instruções de uso. Adeptos do enriquecimento fácil deveriam ser rotulados para facilitar a ação do interlocutor. A exemplo da rede de lojas “Contém 1gr”, teriam inscrito em uma etiqueta, quem sabe na gravata, “Contém 1%”, a medida segura do índice de corrupção na veia. Depois do “rouba, mas faz”, o “rouba, mas rouba pouco”.
O pouco, no caso, é muito. Primeiro porque não existe o pouco ladrão. Gatuno é gatuno, independentemente da estatura. Segundo porque negociatas de médio porte engordam o orçamento do meliante em muitos milhares de reais. Ou de dólares. Sim, eles preferem as verdinhas, mais adequadas a cofres de paraísos fiscais.
Embora seja uma droga, a corrupção não o é no sentido literal, mas convém ficar alerta desde cedo. Como as demais, gosta de alojar-se em incautos impúberes. Podem ainda não ter cometido o primeiro golpe solo, mas são portadores. Às vezes tudo começa com aquela “lembrancinha” para o moço do fórum passar o caso para cima da pilha de despachos.

DITO PELO NÃO DITO
“Toda relação com o poder é absoluta porque está sedimentada numa relação com a podridão.”
Toninho Mendes
CINCO ARROBAS

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* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É Diretor de Redação da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

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