Ando meio (bastante, demais quem sabe?) enjoada com os barulhos que andam agora acompanhando o inverno. É um zunido de splits e de velhos e novos aparelhos de ar condicionado que chega a dar uma tontura na gente. Sem falar no cheiro de fumaça das lareiras movidas a nó de pinho e lenha, coisa mais poluidora que ainda fascina quem compra e usa porque, claro, é tão lindo ver nos filmes aquelas imensas lareiras dos castelos medievais flamejando no fundo das cenas. Mas os tempos mudaram.
Hoje vi passar um lotação com um anúncio no vidro traseiro que falava nas maravilhas do gás natural. E eu ali, parada no meio da tranqueira de começo de noite, respirando gás carbônico e olhando prum pedaço de céu em que se juntavam, logo acima da minha cabeça, galhos de duas árvores diferentes, uma delas um plátano devidamente amarelado, como eu gosto. Galhos e folhas iluminados pelas lâmpadas da rua e dos carros. Para estas árvores, nunca existe descanso, é luz natural de dia e artificial de noite. Tadinhas das “arve semos nozes”.
Longe, muuuuuuito longe estou, de ser uma militante ecológic e, pelo jeito, nem a Marina Silva é de fato, tanto que deixou o Partido Verde. Ao contrário, me dá uma certa urticária quando vejo gente muito plugada na defesa “do planeta”, da “terra mãe”, essas coisas. Não sou partidária da teoria de que o homem é o único bandido nas mudanças que teoricamente “prejudicam” a Terra, acho mesmo que o caos aparentemente organizado da natureza faz o seu trabalho, com ou sem nossa ajuda, nossas pilhas de lixo (inclusive as pilhas de cocô dos dinossauros e seus contemporâneos) e que, um dia, a gente se rasgando ou não para impedir, o sol vai se apagar e, bem, a vida que a gente conhece vai se transmutar em outro tipo de coisa. Ah, filosofia barata de final de semana!
O mais tragicômico é que meu foco era o tal tablóide inglês de mais de século e meio de existência que deixa, teoricamente, de existir neste domingo porque se enfiou na vida alheia além do que os hipócritas que amam espiar pelo buraco da fechadura podem aceitar. Até então, estava legal saber tudo sobre as torpezas de famosos e nem tanto, sem interessar como os ditos “jornalistas” acessavam as informações que publicavam. Agora, como a bisbilhotice topou com uma família atenta que viu, pasma, mensagens do celular da filha morta serem deletados, todas as falcatruas ficaram a nu. E todo mundo passou a condenar o tablóide que vendia milhões e alimentava o voyeurismo de outros tantos.
Vale a pena a gente esquentar a cabeça com isso? Afinal, faz muito frio, os ladrões do mensalão quiçá serão punidos, as pessoas continuam fazendo contas e mais contas porque o Brasil está naquele surto de desenvolvimento (igual ao do tempo do JK, igual do do tempo dos militares e que deram no mesmo buraco de sempre) e, em minha volta, zumbem os aparelhos de ar condicionado e as lareiras soltam fumaça. Melhor puxar minha manta de lã e espreitar os filmes disponíveis na TV.
