Oswald de Andrade, no “Manifesto”: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. Mais um sonhando com o paraíso perdido. Não adianta, antropófago ou vegetariano, todos têm seus momentos de fraqueza e dizem qualquer asneira pra não perder uma piada.
Juremir Machado da Silva
Esses dias o Juremir disse que a grande imprensa de Rio e São Paulo faz de conta que ele não existe. Não acho que seja uma conspiração. Acho apenas que se trata de incompetência jornalística, ou um enlevo com o próprio umbigo, coisas que levam a chamar de obra-prima muita porcaria ou a exaltar conterrâneos que têm um único mérito: ser conterrâneo. Isso sem falarmos na banalização brutal do jornalismo. Por exemplo, numa dessas bienais, a Xuxa se abaixou e mostrou um golfinho tatuado no rego. Esse fato ocupou um tremendo espaço nos jornais e na internet, com foto dos mais variados ângulos. Em troca, não se soube se a Xuxa apareceu na bienal pra comprar algum livro que realmente merecia ser lido e comentado ou pra mostrar o golfinho apenas.
O Juremir lançou há pouco um livro sobre as vilezas dos heróis farroupilhas. É um livro importante, porque pega no contrapé todo um bando de historiadores que transformaram esse levante — revolução é uma palavra forte demais pra mim — numa singela novela das seis. Os suplementos de cultura, os cadernos B da vida, as revistas semanais silenciaram. Azar nosso.
Ainda Juremir
Fui atacado umas duas ou três vezes pelo Juremir. Na primeira, chamei pra discussão, mas ele tirou o corpo fora. Ele estava no topo, na Zero Hora, não precisava discutir. Um dia fiz uma piadinha maldosa sobre uma crônica lírica dele. Me chamou de um monte de coisa por aí. Enfim, parece difícil que um dia a gente venha a ser amigos. Mas isso não me impede de reconhecer quando ele acerta, como nunca me impediu de reconhecer os acertos de ninguém. Sei que não parece, mas sou um cara sério.
Antes de Dostoievski
Milton Ribeiro fala de uma amiga, psicóloga, com mais de trinta anos, que resolveu ler Dostoievski. Começou por “Problemas da poética de Dostoievski”, do Bakhtin, e “Tolstoi ou Dostoievski: um ensaio sobre o velho criticismo”, do George Steiner. Tomara que ela fique satisfeita com eles e deixe Dostoievski em paz.
Talvez se trate de um caso cabeludo de insegurança ou deformação profissional. Mas acho que há mais: essa moça não gosta de literatura, nem tem a menor ideia do que é literatura. Ler um romance é se meter com pessoas desconhecidas, muitas vezes perigosas — loucos, criminosos, adúlteros, viciados, idiotas. Não vamos apenas conviver com elas, conviver intimamente. Vamos estar na pele delas, entalados na mesma situação, no mesmo cenário, coisa que dará um sabor especial ao que elas pensam, se pensam. Isso é mais profundo que homem abstrato dos filósofos, como disse Huxley.
Depois, um romance oferece uma infinidade de detalhes, de pequenas surpresas e revelações, de torneios verbais, que perdemos se ficamos apenas num ensaio sobre ele. Sem falarmos em atmosferas. Sem falarmos na aventura da descoberta, entre uma cena e outra, do que os personagens calaram, que é sempre a maior parte e a mais importante.
Conta redonda
Dona Leonor Acevedo, a mãe do Borges, morreu aos noventa e nove anos. No velório, uma pessoa, ao dar os pêsames a ele, lamentou que ela não tivesse aguentado mais um pouco pra alcançar os cem. Ele: “Me parece que você exagera os encantos do sistema decimal”.

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