Notei que os anúncios de falecimento ou convite para missa de sétimo dia costumam sair no rodapé da seção de polícia dos jornais. Por quê? O mistério é metafísico ou essas páginas são mais baratas apenas? Notei outra coisa também: nomes como Carlinda, Estranzulina, Herculano ou Libânio são vistos apenas nesses anúncios. Jamais se viu uma Estranzulina viva e atuante. Essa gente parece sair do nada direto pro cemitério. O pior é que as fotos que ilustram os anúncios são típicas. Mesmo fora de contexto, sabemos: trata-se de defunto.
O peso das palavras
Dei uma oficina de tradução, na Feira do Livro. Uma das coisas de que falei é aquilo que o Borges chama de ambiente da palavra. Ele achava que talvez não se pudesse traduzir a palavra “moon” por “luna”, porque há toda uma cultura, uma tradição, enfim, uma rede de referências por trás de “moon”. Estava exagerando, claro, mas entende-se a preocupação dele. Há casos mais grosseiros, falei. Então um dos rapazes, que é tradutor há cinco anos, deu um exemplo brilhante: ao traduzir um romance americano, topou com a seguinte frase: “Ele era bonito como um veado”. No fim não fiquei sabendo como foi solucionado o problema, mas imagino que sem sair do reino animal. Eu apostaria em que ele era bonito como um cavalo.
Cantinho da poesia
Luiz Coronel, no Correio do Povo: “Porque é verão,/ as mulheres exalam/ o aroma das amendoeiras/ e têm o profano sabor da hortelã”. Hummmm. Acho que nunca vi uma mulher em carne e osso. Ou, talvez, a coisa seja menos grave, nunca cheirei uma amendoeira nem provei hortelã. Ou então não sei nada sobre desodorantes íntimos.
O velho espião
John Le Carré, em O jardineiro fiel, deu uma olhadinha nas multinacionais farmacêuticas: as ligações corruptas com políticos e serviços secretos, a forma como destrói cientistas honestos, o teste criminoso de drogas na África. Quer mais? As pesquisas são pagas com dinheiro público, as múltis descontam imposto de renda doando remédio vencido para o terceiro mundo e vendem a 60 dólares uma pílula que poderia custar 60 centavos. Não é um grande romance. Mas é o mais talentoso manual que conheço sobre o funcionamento do que se chama, com unção religiosa, mercado livre.
Policial durão
Na contracapa do medíocre O grande deserto, do James Ellroy, há a seguinte frase do Detroit News: “Um retrato da Los Angeles do pós-guerra em forma de buraco negro. É Hieronimus Bosch encadernado”. Sempre me surpreendo com a capacidade dos americanos de levarem a sério seus escritores de quinta e com a capacidade do resto do mundo de acreditar neles.
Outra historinha de verão
O Farol de Santa Marta, SC, passou de aldeia sonolenta à loucura desenfreada em poucos anos, com hordas de turistas. Numa noite de carnaval, uma amiga minha ouviu uma conversa exemplar num boteco. Estavam na mesa cinco homens e uma mulher, todos aí pelos vinte e poucos anos, todos com aquele ar saudável dos surfistas. Um dos homens disse: “Olha, pessoal, se vamos fazer outra festa hoje, é melhor vocês arrumarem umas garotas. A minha namorada disse que não vai dar mais pra ninguém”. A namorada, como se não estivesse presente, continuou comendo seu sorvete.
Lirismo
Sempre achei que o lirismo não precisa ser necessariamente idiota ou baboso. Mas quase sempre o lirismo acaba sendo o álibi dos crimes literários mais brutais.

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