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Apenas três meses para terminar 2020

Por Márcia Martins

Como já escrevi em algumas colunas, encontro-me desde 16 de março no mais completo e rigoroso isolamento em decorrência da pandemia do Coronavírus e, não só atendendo o que diz a OMS, mas, principalmente, seguindo orientação médica. Apesar de não aparentar a idade (no máximo, com muito esforço, posso passar por uns 52 anos), já tenho 60 anos de muita experiência e felicidade. Mas, além do fato de ser “sessentona”, uma doença autoimune indica que não devo relaxar no confinamento. E tenho sido comportada e obediente nestes meus 199 dias e noites trancada dentro de casa.

Na segunda-feira, contrariando hábitos que cultivo desde antes do isolamento, acordei cedinho porque pensei que iria ouvir um debate dos (as) candidatos (as) a prefeitura de Porto Alegre, organizado por uma rádio de um conglomerado de comunicação. Ao final do programa, que se transformou num merchandising de automóveis, percebi que precisava providenciar o almoço e que a tarefa só seria possível se eu tivesse óleo de cozinha. Devidamente protegida, com álcool em gel besuntado nas mãos e máscara que mal deixava ver os olhos, dirigi-me ao mercadinho do lado, sem imaginar que o pior estava para acontecer.

Assim que firmei os pés no pequeno comércio quase ao lado do meu lar, numa espécie de gôndola improvisada, adivinhem com o que eu me deparei? Não. O dono do mercado estava de máscara. Não. A atendente também trabalhava com a proteção necessária. Não. O local não estava cercado de seguranças armados para cuidar do arroz, este bem tão valioso. Todos organizados. Lado a lado. Alguns em posição mais estratégica, talvez por estarem em oferta ou serem lançamentos. Eu vi os primeiros panetones deste terrível ano de 2020.

Para quem está saindo de casa, mesmo sem necessidade, furando o isolamento e passeando pelas grandes redes de supermercado, como se não houvesse uma pandemia, os panetones sempre fizeram parte do cenário. Mas, para esta que vos escreve, este pão doce, normalmente recheado de frutas secas, alimento tradicional da época de Natal, foi o gatilho detonador de cenários de horror na minha cabeça.

Se o mercadinho local está anunciando o panetone, quer dizer que já estamos perto do Natal? E como tudo aconteceu assim tão rápido se não comemorei meu aniversário com família, se não passei uns finais de semana em Butiá com mano, cunhada e um dos afilhados, se não acertei ainda com a filha Gabriela onde irá ficar o cusco Quincas Fernando nas festas de final de ano? Nem as reuniões com os movimentos feministas estão acontecendo semanalmente de forma presencial, como sempre ocorre ano a ano? Será que eu, tipo Bela Adormecida, dormi um tempo prolongado e não vi o tempo passar?

Não pensem, por favor, que eu enlouqueci. O que não seria de todo improvável. Uma vez que estou fechada entre quatro paredes, recebendo mantimentos e remédios alcançados pela filha pela porta gradeada do apartamento e não vejo parentes e nem amigos. Poderia ter endoidecido. Pois limito-me às escapadas mensais para meu tratamento de saúde, faço revezamento de leituras, sessões de música e filmes, intercalo reuniões virtuais com lives de política, feminismo e música e até desenvolvi pequenos afazeres culinários que vão além de passar café e fritar um ovo.

Tudo isso relatado acima, acrescido ao fato de que não só falo sozinha, como discuto comigo e fico períodos fazendo birra com a minha pessoa, poderia sim indicar que estou desmiolada para me intrigar os panetones em exposição no armazém do bairro. Na realidade, mais do que mostrar que o Natal está perto, que faltam apenas três meses para se encerrar 2020 (e o que foi este ano, meu Padrinho Padre Cícero?), a aparição dos panetones me lembrou que ainda não temos vacina para o Coronavírus, que não sei quanto tempo mais terei que ficar trancada, quantas mortes ainda vamos chorar e o que será de 2021.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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