A campanha pelo desarmamento da população civil foi encampada pela Rede Globo, o que significa que todos os políticos de bom senso deste país, que não são muitos na maior parte do tempo, mas que são quase todos quando se trata de garantir presença no Jornal Nacional, haverão de votar a favor da proibição da venda e do porte de armas. Nunca tive uma arma, já vi gente de, digamos, boa índole, se dar mal por andar com arma. Não há dúvida de que numa refrega com bandidos, o cidadão comum sempre levará a pior, não foi treinado para isso, ao contrário do adversário. Também não tenho dúvidas de que arma, sendo feita para matar, jamais será boa coisa, melhor seria se o mundo se livrasse delas de uma vez por todas. O problema é: quem vai explicar isto aos bandidos? As armas de fogo comuns, daquelas que algum tio da gente sempre tem em casa, um 22, mesmo um 38 (ainda existe a Beretta?), são utilizadas em causas menores, embora mortais, mas os criminosos de alto nível, os promotores de carnificinas, há muito as aposentaram. O negócio agora é grosso calibre, fuzis, material de forças armadas de primeiro mundo. Como não se consegue combater, muito menos desarmar o banditismo globalizado, que se desarme a população. A culpa da criminalidade neste país é do cidadão decente que, apavorado com o nível atingido pela violência urbana, comprou uma arma na ilusão de ficar protegido. Não adianta nada, se sabe, possivelmente será usada contra ele, mas talvez exerça razoável efeito psicológico.
Enfim, a culpa é de nossos tios, e não do Fernandinho Beira-Mar.
O problema do tráfico de drogas no Brasil ultrapassou todos os limites aceitáveis no mundo civilizado. Boa parte dos grandes centros urbanos é controlada, controlada mesmo, pelos narcotraficantes. Como não se consegue acabar com a farra da bandidagem, a melhor, postura, que começa a ser adotada por enorme fatia de nossas autoridades, algumas com as contas bancárias engordadas em troca da omissão, e até pela mídia, é deslocar o foco. Só há tráfico de drogas porque há consumidores de drogas, há festas de embalo na Zona Sul do Rio, freqüentada por gente fina que passa o dia desancando as autoridades que não resolvem o problema e a noite cheirando suas carreirinhas servidas em bandejas de prata em elegantes coberturas. É verdade, até porque pobre não tem dinheiro para comprar comida, muito menos drogas. Classe média baixa ainda consegue uma maconha da ruim, jamais uma cocaína da boa. Mas eu gostaria que alguém me explicasse como países, “tipo assim”, a Holanda, conseguem ser liberais na questão das drogas e nem por isso criar fernandinhosbeiramares. As drogas pesadas são perigosas, todos concordamos, mas o problema do Brasil é a imensa desigualdade social, uma distribuição de renda absurdamente injusta, a farra de uma meia-dúzia em cima da miséria de milhões. Não se trata de fazer apologia às drogas, argumento utilizado por quem não tem outro melhor, mas de protestar contra a cômoda mudança de foco. Autoridades eleitas, devidamente constituídas e muito bem pagas, nada fazem de concreto para resolver o problema. Nunca fizeram. Num governo de esquerda, e se atribuindo o consumo à burguesia, os traficantes tendem a continuar à vontade.
Enfim, a culpa é do maconheiro aquele nosso amigo, e não dos traficantes que mandam neste país.
Outro dia assisti na TV a uma reportagem sobre prostituição na adolescência. A matéria foi bem feita, mas me chamou a atenção o depoimento de um delegado. Ao referir-se a um cidadão preso em flagrante por contratar os préstimos de uma destas garotas, o representante da lei e da ordem mostrou-se indignado com a atitude do cidadão, ao qual qualificou como tarado, bandido, doente, “sim, porque este homem precisa de um tratamento”. Bravo, delegado, bravo. Muito corajoso de sua parte. E muito cômodo. O verdadeiro bandido, o cafetão, o sujeito que explora as mocinhas, este pode dormir sossegado. E o mais verdadeiro bandido no caso, a desigualdade social que conduz por este caminho mulheres em tenra idade, com o perdão pela expressão vetusta, esta permanecerá como tal. Mas não quero me repetir. Nem sei se vale a pena lembrar que desejo sexual por adolescentes é natural ao homem. Minha mãe casou-se com 15 anos, minha avó com 13, era assim antes, e ninguém ficava alarmado. Não é à-toa que meninas a partir dos 12 desfilam e posam para fotos. Sempre existiu e sempre existirá. A qualificação do desejo depende da sociedade, da cultura, do nível de moralismo. O desejo em si não é doença. Procurar prostitutas mirins já é outra história, longa demais para caber neste parágrafo. Mesmo assim, não resolveremos o problema trancafiando os clientes.
Enfim, a culpa é do homem que se sente atraído por uma adolescente, e não dos cafetões e dos que alimentam a imensa miséria deste país, capaz de atirar meninas quase crianças nos braços da prostituição e dos exploradores de sempre.
É como aquela conversa velha, machista, desgastada e rejeitada pelos novos tempos de culpar a vítima pelo estupro. Trata-se de uma tendência que cresce de forma alarmante. Se não se pode, ou não se quer, resolver os problemas do Brasil, que se mude o foco. Nossos amigos, colegas ou vizinhos passam a ser vistos como armados, drogados e tarados, enquanto os verdadeiros culpados seguem impunes, a injustiça social só faz aumentar e a mídia ainda aplaude. Com todo o moralista levantar de sobrancelhas do William Bonner a que tem direito.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. Integra a equipe da ConsulteCom e escreve semanalmente neste site.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial