Sempre vi a expressão arte pela arte usada de modo pejorativo. Por quê? Se arte, para ser arte mesmo, precisa ir fundo no homem, jamais será uma coisa gratuita, feita de nada em pleno ar para admiradores de nada que vivem no ar. Um poema de amor é engajado, me parece, já que até o último mendigo ou o mais feroz revolucionário tem seus probleminhas amorosos. Se você acha que assuntos como a fome e a tortura têm primazia, escreva você mesmo. Para outros pode ser a solidão, a alegria, o sexo, o sonho, o brinquedo, sei lá.
Mais: não se anda atrás dos temas, os temas é que vêm até a gente. Não é possível controlar o processo criativo na base da força de vontade, ou é, mas o resultado não vale um dólar furado. Limitar os temas que devem ser abordados, ou limitar os ângulos de abordagem desses temas, é o que foi dito: limitar. Qualquer pessoa, por mais imbecil que seja, é um bicho muito complexo para caber nos esquemas de crentes de qualquer espécie.
Arte pela arte pode ser uma legenda pejorativa para gente que pensa que a arte é um adorno, um mero enfeite, ou deseja que ela funcione como um decreto governamental ou uma forma de assistência do tipo Exército da Salvação. Mas pode também ser a determinação do artista em ser fiel à arte, ao que a arte supõe de compromisso, quer dizer, ser profunda, tentar pegar o homem inteiro, da fome ao sonho mais delirante, não ser apenas um manual de sociologia ou economia, ou uma campanha publicitária de determinada causa, por mais justa que a causa possa ser.
Dicionário do mau digitador
Não, não passei a digitar com perfeição. Parei com meu dicionário porque meus erros se repetem com o mesmo tédio com que caem ministros, mais um processo é arquivado pelo STJ e celebridades mostram inadvertidamente a calcinha. Lá de vez em quando aparece algum interessante, como esta palavra para novas noturnas: “noitícia”. Ou esta outra: “semelhantres”, que, acho, denomina trigêmeos idênticos.
Tábua de salvação
É, aos poucos a literatura vai se tornando um vício. Ou não? Acredito na literatura como meio de exorcismo, além de uma boa brincadeira. É numa boa página que tentamos nos esclarecer para nós mesmos, que tentamos enquadrar a dor, a confusão e outras mazelas. É de uma boa página que tentamos sair uma pessoa melhor. É por isso, acho, que a gente sempre volta para o teclado. Talvez, quando acertarmos todas as contas, a literatura possa se tornar um entorpecente. Mas como é muito difícil acertar todas as contas, a literatura está sempre mais para tábua de salvação.
Isso é válido para literatura. Ninguém aqui falou em beletrismo.
Fusca
Sabe como se chama o Fusca em Portugal? VW Carocha. Taí mais uma prova de que não adianta a gente fazer acordos com os portugueses. Como dizia o Oscar Wilde em relação ao inglês dos ingleses e dos americanos: uma língua comum nos separa.
Sem remorsos
Nunca sei se vou terminar o que estou escrevendo ou se no fim não jogo no lixo. Já joguei muita coisa no lixo, trabalho de anos, sem remorsos. Acho bom escrever com confiança, mas não uma confiança divina, digamos com uma confiança de quem aposta na roleta-russa. Se não há perigo a cada nova linha, fico desconfiado, sinto como se estivesse engordando ou roubando do ceguinho.
Superpopulação
O Fraga foi definitivo: “A cada minuto nasce um idiota. Tá explicado como chegamos a 7 bilhões”.

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