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As Machado de Azevedo

Elas se chamam Maria Luci, Maria Luiza (Lila), Geni, Leoni, Edy (Eda), Doly (Neusa) e Darci. Todas filhas de dona Zeca e seu Alfredo. …

Elas se chamam Maria Luci, Maria Luiza (Lila), Geni, Leoni, Edy (Eda), Doly (Neusa) e Darci. Todas filhas de dona Zeca e seu Alfredo. Luci é minha mãe. Darci já partiu. Todas, bem como os rapazes da família, foram e são lutadoras cheias de personalidade que não dão trégua para a tristeza, o desânimo, a fraqueza moral, ao contrário – quando entram numa briga (e o fazem com frequência) – não entregam os pontos nem mesmo de cara para o ringue. Portanto, venho de uma família de mulheres briguentas, com tolerância zero em especial para a mentira.

Somos, igualmente, um monte de primas-irmãs, umas mais outras menos próximas, seja por distância física – como em relação às da tia Darci, que moram há anos em Santa Catarina e que nunca vi, ou Márcia, do tio Rubem, que foi pra São Paulo –, seja por esta maldade que se chama falta de tempo. E este mulherio, fruto das Machado de Azevedo de primeira geração, da mesma forma, é do tipo que não dá folga nem pro azar nem pra safadeza.

Maria Padilha, Maria José de Azevedo, Salete Terezinha de Oliveira, Helena e Isabel Juchtchchen e Eliete Ely – com estas me criei, tive a alegria de crescer junto com elas e só mesmo os deveres da chamada idade adulta nos tornaram mais afastadas, com encontros quase que só em aniversários, casamentos e ocasiões inevitáveis, mas menos alegres. Juntas, vivemos festas familiares inesquecíveis – São João com fogueira na frente de casa, Ano Novo com churrasquinho em fundo de quintal, fins de semana na beira do rio quando o Guaíba era respeitável.

Família unida, que se ajudou e muito nos momentos mais difíceis de uma ou outra, coisa que não faltou para gente trabalhadora de verdade. Tia Geni foi empregada por décadas e ainda é cozinheira de mão cheia; tia Lila bordava lindamente para ajudar na renda da casa; tia Leoni, ao longo de anos, serviu ao Estado como exemplar funcionária pública; tia Eda costurou uniformes para o exército e, mais tarde, trabalhou como vendedora de uma loja de presentes; tia Neusa passou décadas atendendo em loja de roupas de criança; tia Darci, já velhinha, era diarista, e minha mãe, que começou criança a trabalhar em uma fábrica de palitos de fósforo, costurou, colou e pintou muito calçado ajudando meu pai na nossa sapataria, que só fechou porque o velho não segurou os efeitos dos vários AVCs. Trajetórias que me orgulham, as de todas estas mulheres.

A vida, para nenhuma destas mulheres, foi um mar de rosas. A luta, iniciada na meninice, por sobreviver dignamente numa família de 13 filhos, se estendeu para os dias de hoje e, mesmo as que se aposentaram com um dinheiro absurdamente irrisório, permanecem ativas, cuidando da casa, de netos, administrando a rotina sem se permitir deitar na rede.

As mulheres Machado de Azevedo viveram os reflexos do horror da Segunda Guerra Mundial, ultrapassaram revoluções que bateram à porta de sua casa e perdas de afetos mas nunca, nunca dobraram a coluna. Quando a dor apertava, uma corria a ajudar a outra e, nesta corrente de solidariedade, eu e minhas primas fomos criadas. Costumo dizer que cada uma de nós, desta geração parida pelas filhas da vó Zeca, demos um passo à frente para que os nossos filhos deem o deles, bem maior que o nosso, continuando a saga com orgulho de ser quem somos. E temos sido, realmente, bem-aventuradas com os que geramos e que, com a ajuda de nossas mães, educamos.

Sem erguer bandeiras de feminismo barato, estamos na luta de há muito. Estudamos em escolas públicas, optamos por diplomas universitários ou não, maternidade ou não, escolhemos nossos caminhos com convicção, já que a base foi sólida.

O amor das Machado de Azevedo não é de novela, regado a lágrimas de colírio ou abraços filmados do melhor ângulo. É um amor real, com discussões, discordâncias, brigas até, mas com uma união extraordinária.

Aprendemos a amar com dona Zeca e suas filhas. Dona Zeca, que amava seu Alfredo, que, já bem doente, vinha nos visitar em casa e, para agradar a meu pai, caminhava, penosamente, até a sapataria, levando junto um banquinho em que ia sentando, a cada dez passos, para recuperar o fôlego.

Somos feitas, nós as Machado de Azevedo, de muita fibra. E, ao mesmo tempo, de muita doçura. Esta mistura nos permite enfrentar tempestades sem quebrar. Por isso, não tenho medo de dizer, como venho dizendo e por isso sendo agredida e ameaçada, que não quero Dilma Rousseff me representando nem como mulher nem como ser humano. Por isso não me dobro para quem quer me calar quando digo que Lula é, hoje, muito mais próximo de Hitler em sua manipulação das massas e no autofascínio do que um líder de uma nação. Por isso mantenho meu voto em José Serra. Eu faço parte dos 40 milhões que não querem uma terrorista substituindo um novel-nazista no comando do meu Brasil. Eu sou vencedora desde que nasci: sou uma Machado de Azevedo na origem. E eu sou milhões.

Autor

Maristela Bairros

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