Li a biografia de Conrad escrita por John Stape, na edição da Debolsillo. Bem documentado, Stape passa boa parte do tempo desmentindo as fantasias de biógrafos passados. Só por isso valeria a pena.
É um livro duro de ler. Conrad teve uma vida tão miserável que, lá pelas tantas, ficamos torcendo pra que ele morra de uma vez. No começo, pobreza, orfandade, desterro, solidão. Doença, sempre. Quando enfim começou a ganhar dinheiro com literatura, não tinha mais o que dizer e escreveu uma porção de livros de segunda ou de terceira. Pra completar, teve um filho jogador, que devia grana a torto e a direito, e até foi preso como estelionatário.
T. S. Eliot disse que conheceu um único cavalheiro: Conrad. Vendo uma foto dele, de 1916 ou 1917, de terno, colete e botas, barba branca, não se pode imaginar as doenças, os esgotamentos, enfim, sua fragilidade. Realmente, ali parece estar um cavalheiro, ou mais, um homem sólido, o velho lobo do mar seguro de si, que esteve em toda parte e tudo viu, com calma e isenção. Temos essa mesma impressão lendo seus contos, novelas e romances. O fato de a verdade ser mais complicada e menos romântica era esperável, mas que é melancólico, isso é.
Perigo amarelo e perigo do além
Não é que uma noite dessas, zapeando, topei com um padre e uma freira ninjas lutando contra uma legião de vampiros ninjas? Pior, a sério.
Sabe-se que virou moda reescrever livros clássicos metendo zumbis no meio. O mais conhecido talvez seja “Orgulho e preconceito e zumbis”. Acho que vou entrar na onda. Mas não com zumbis. Com ninjas. Talvez eu comece com “A moreninha ninja”.
Ou vou de zumbi mesmo? Nesse caso, o melhor seria “As memórias do zumbi Brás Cubas”, não?
Quixote
Uma das minhas preocupações, ao traduzir o Quixote (para a Penguim-Companhia, a sair esse ano ainda), era manter o ar de antiguidade, sem ser ilegível, ou obrigar o leitor a consultar o dicionário de três em três frases para não ser desorientado por ambiguidades bobas. Vamos aos exemplos.
Duas palavras que aparecem dezenas de vezes são burla e burladores, que eu traduzi quase sempre por brincadeira e brincalhões, porque hoje burla e burlador nos fazem pensar primeiro em trapaça e trapaceiros, não em gozações e gozadores. Gozação e gozadores seriam melhores opções, mas aí, adeus, antiguidade.
Certamente soaria mais antigo se eu usasse trocista (1881), caçoador ou chasqueador (1899) em vez de brincalhão. Talvez soasse mais antigo ainda se usasse pilherador. Pois é, pilherador é do século vinte. Brincalhão? 1871. Mas minhas decisões não dependeram de um par de anos ou décadas. Dependeram da legibilidade, como disse, sem falar que nesse caso a palavra brincalhão soa muito melhor que as demais.
Outra situação parecida é ter usado esconder em vez de absconder, acantoar ou alapar. Esconder é perfeitamente compreensível desde o século treze. Entre todos esses exemplos, alapar é o que soa mais antigo, não? Na verdade é o mais moderno, é de 1858. Sentiram? Nem tudo que cheira a mofo é antigo.
Para encerrar, um caso oposto ao anterior. Maneiro, palavrinha usada por Cervantes e que entrou no português escrito em 1789. Eu a evitei. Posso ter sido traído por meu ouvido, mas maneiro não soa a gíria dos anos sessenta?
Problema de tradução
Tenho visto, com uma frequência alarmante, em dublagens, legendas, até em matérias de jornais e entrevistas na tevê, a expressão “dei o meu melhor”. É brabo. O cara sai da escola sem saber inglês, mas, pior ainda, sem saber português. Porque, cá pra nós, no Brasil, que tem uma preferência famosa em matéria de anatomia, andar por aí dando o seu melhor é coisa perigosa.

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