Textos jornalísticos exigem do autor um mínimo de parcimônia no uso de adjetivos, conforme se aprende desde cedo. O Evaldo Gonçalves foi o primeiro a me alertar: “Evita-se o uso da expressão “grande campeão” porque não há pequenos campeões”. Também não é necessário definir como “trágico” um acidente com dezenas de mortes. Cidades de poucos habitantes dispensam o “pacata”, bem como eventos com dezenas de milhares de participantes não necessitam do “mega”, ou uma top model do “bela”. O esporte é pródigo em tais expressões, algumas das quais repetidas à exaustão, como “a pequena” Daiane dos Santos, “o baixinho” Romário e assim por diante. Na televisão, aparentemente, tal preocupação não existe. Os textos, em especial os esportivos, irritam pelo excesso de adjetivos.
Mas o verdadeiro adjetivo da TV não é falado, e sim interpretado. A cada notícia, o apresentador sente-se na obrigação de manifestar, por meio de um franzir de cenho, um apertar de lábios ou um balançar de cabeça toda sua indignação. Deve pensar que o telespectador só sentirá o impacto desejado caso tenha cumplicidade. Se a informação é mesmo chocante, o gestual é dispensável. Se não, ganha conotação moralista, o que ocorre com freqüência. O casal Jornal Nacional é perito nisso. Basta um mínimo de viés moral na notícia para que eles deixem clara sua posição de cidadãos acima de qualquer suspeita. O Boris Casoy é mais explícito. Ataca logo com o bordão “isto é uma vergonha” e se dispensa das contorções faciais.
Apresentadores de notícias devem somente repassá-las ao espectador.Ele saberá julgar o grau de gravidade. Não precisa que ninguém fique indignado por ele. Principalmente pessoas que fazem questão de se mostrar injuriadas mesmo por atos cotidianos, desde que não sejam os delas. Os telejornais seriam menos chatos se dispensassem os atores e convocassem jornalistas.
Um ótimo reveillon e continuem me prestigiando em 2004.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É editor da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

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