326944. Este é o número que o goleiro Bruno virou. Um fichado com uniforme vermelho de preso. Bruno, o cara que venceu na vida, acabou. Mas as autoridades tiveram 8 meses para evitar que Eliza Samúdio fosse morta. Não o fez. Ironia: agora, que ela virou restos a serem resgatados, depois de ser servida como repasto a cães, Bruno foi detido por tê-la seqüestrado e ameaçado. Nem é ironia. Isso é deboche.
Do que adianta o encorajamento às mulheres para que denunciem atos de violência contra elas se continua a indiferença quando não o reacionarismo às questões, quase sempre imputando à mulher o papel de responsável por ser atacada. De que adiantou aquela cabeleireira registrar várias ocorrências contra o ex-marido se ela levou 9 tiros diante da câmera que instalou, por medo, em seu salão? De que adiantou Eliza Samúdio contar, publicamente, as ameaças que estava sofrendo, inclusive para veículos de comunicação?
Quem se informa, leu, viu, ouviu: o Disque Mulher registrou um aumento de 95 por cento em 2010. É o dobro do ano passado. Estarrece tanto quanto os detalhes da execução da namorada do goleiro.
O governo Lula e sua secretaria que deve cuidar desta triste realidade quer faturar em cima da cifra, dizendo que este aumento se deve às suas campanhas de incentivo às denúncias. Eu já acho que, como a impunidade é evidente, e as mulheres continuam a levar porrada e a serem mortas como baratas (quase sempre achincalhadas e chamadas de putas entre outras coisas), não há mérito algum em haver aumento no volume de denúncias. Afinal, denunciar serve para quê?
Não me entra na cabeça o fato de Eliza Samúdio ter gravado entrevista que milhões viram, ter feito o que legalmente deveria, registrando sua queixa, para ser deixada desamparada, ela e o filho de 4 meses, entregue à sanha de Bruno, o poderoso do Flamengo. Garota de programa? Era, com certeza? Interesseira? Caça-dotes? Deslumbrada? Burra? Pode-se responder sim a todas estas questões. E daí? Por isso merecia ter o fim que teve? Tudo o que se falar é redundante neste caso.
Me dá nojo saber que quem deveria defender as Elizas Samúdios, com a força da lei, não o faz. Só aceitar denúncia é piada. O Brasil vive a delícia da impunidade movida pela grana, pela cínica idolatria ao que veio de baixo, venceu as adversidades e, coitado, não tinha estrutura para ter grana, afinal, foi abandonado pelos pais etc etc etc. Por estes etcs todos, pode bater, pode dizer que bate publicamente, pode seqüestrar, pode matar.
E a mídia, o que fez? Aproveitou a matéria boa, legal para zoar com a cara da maria-chuteira de voz macia, fotos de bunda empinada, que se envaidecia de ser procurada por esta categoria especial chamada “desportistas” do futebol. A mídia botou no ar a história minuciosamente relatada por Eliza, lhe deu mais corda e incentivou-a a contar outras intimidades. Depois, nunca mais. O vídeo ficou rolando no youtube onde, hoje, divide acessos com os pornôs que ela fez.
A mídia ficou de consciência tranqüila com o que fez – deu voz a uma denunciante. Ganhou seu ibopezinho. Agora, ganha mais, cobrindo todo o circo da morte anunciada de Eliza Samúdio. Afinal, iria se preocupar com ela se nem mãe, nem amante, nem ninguém, além de um punhado de amigas, se importava com ela? Era uma vadia para a maioria dos “bons brasileiros”. Bruno sim, era um ídolo, construído pela mesma mídia que usou Eliza para o deboche. Bruno, agora, é um número que nem sua altivez vai apagar. E a mesma mídia que o criou e alimentou suas idiossincrasias com simpatia e conivência, agora segue seus passos fingindo indignação e espanto. A mídia também é responsável pela execução de Eliza Samúdio.
