Colunas

Bandidos bons muito vivos

Grande parte das autoridades e grande parte da população acham que bandido bom é bandido morto. Como se explica então que Eduardo Cunha esteja …

Grande parte das autoridades e grande parte da população acham que bandido bom é bandido morto. Como se explica então que Eduardo Cunha esteja vivo, enquanto as provas contra ele dormem no Supremo? Como se explica que Bolsonaro seja apoiado por aclamar bandido na lista dos crimes hediondos? Como José Serra, figura central da privataria tucana, com dezoito processos por corrupção nas costas, ande lampeiro por aí há mais de uma década? Dos 594 membros do Congresso (513 deputados e 81 senadores), 352 enfrentam acusações por crimes – muito bem, como se explica que nenhum tenha levado nem um ovo podre na fuça, muito menos uma bala? É a história de sempre: bandido bom é bandido morto desde que seja pobre, preto ou pardo. Não dá um cansaço, hein?

Rede Globo

Gritou-se muito este ano: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Mas a verdade é mais dura: a Rede Globo apoiou a ditadura e não se arrependeu disso. Mais ainda: foi apoiada pela ditadura, cujos principais atores também não se arrependeram. E por que se arrependeriam se a coisa deu um lucro enorme e promete mais?

Aparelhamento do Estado

Vi muita gente acusando o PT de ter aparelhado o Estado. Se isso é verdade, depois do que vimos nesses dois últimos anos, pode-se dizer que fracassou redondamente. O aparelhamento que prevaleceu foi o que já existia de séculos, o da plutocracia. Ou há outro modo de explicar tantos petistas em cana e tantos corruptos, delatados sistematicamente, como Serra, Cunha e Aécio, por exemplo, não apenas soltos como nem investigados?

A coisa anda tão feia que até uma palavra como plutocracia entrou na minha linguagem seleta.

Cervantes e Shakespeare

Sócrates disse que é natural a um mesmo homem saber fazer comédia e tragédia. Mais: que aquele que é, com arte, um poeta trágico, será um poeta cômico. Mas a verdade é que poucos se equilibraram nessa corda bamba. Entre eles, Shakespeare e Cervantes.

Acho que nos melhores momentos, Shakespeare e Cervantes conseguem ser trágicos e engraçados ao mesmo tempo. Se pensamos em Antônio e Cleópatra, por exemplo, pode-se dizer que Shakespeare dá um tratamento de comédia à tragédia. Se pensamos em tantos momentos do Quixote, pode-se dizer que o humor de Cervantes desemboca na tragédia.

Toda grande tragédia traz em seu cerne o que temos de absurdo ou ridículo, e toda grande comédia nos deixa melancólicos no fim, porque sob o absurdo e o ridículo está o cerne trágico de todos nós. Não há escapatória, meu bem. Pena que faltem talentos como os de Shakespeare e Cervantes pra dar conta dessa encrenca.

Os dois não têm medo de misturar tudo quanto é tipo de material ou de variar de tom. Na verdade, buscam conscientemente essa mistura e variação. São abusados, selvagens, até grosseiros quando a situação exige. Muita gente boa fica com os cabelos em pé por causa disso. Nabokov, por exemplo.

Publicizar

Por que usar uma palavra idiota dessas se temos a ótima divulgar?

Dicionário do mau digitador

Romântrica. Mantra em ritmo de bolero.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.