Acabo de chegar de mais uma “visita” à médica. Na saída do prédio, o porteiro que me abriu passagem, sorridente, respondeu a meu questionamento nada original sobre o tempo: “ah, vem mais frio aí, sim senhora, mas melhor assim que com chuva!” E, ao que eu virei as costas, acrescentou: “bom fim de semana”. Assim, gentil, espontâneo, profissional em sua atuação mas fazendo a mais do que lhe é, com certeza, exigido por um salário de portaria.
Este senhor, que deve ter seus 60 anos de idade, talvez menos, mas com rosto marcado por rugas, caminha com dificuldade por ter uma das pernas mais curta e se veste modestamente. Mas é um gentleman: atende com cordialidade sem excessos, interage com fineza, exemplificando que para ser um cara educado não é preciso diploma nem cargo público.
Tem muito sujeito por aí que parece gentil, educado mas não é. E existe, em meio a esta tribo dos fakes de poder na mão, os que agem como cavalheiros românticos dos contos de Jane Austen: não precisam ter intimidade com ninguém para se tornar “amigos” imediatos, em especial em relação às mulheres. Além de abrir para elas um sorriso que exibe toda a dentadura, não hesitam em beijá-las como comadres confraternizando em alegre encontro. Estes são dolorosamente falsos, são os profissionais da gentileza.
No meio político, em especial, os deste tipo abundam. Cruzei com vários, quando estava à frente da Comunicação Social da Secretaria de Estado da Cultura e, por conseguinte, “convivia” com políticos. Na rua, em bifês, em “eventos”, lá estava ele, o beijador automático, sem ter a mínima idéia de quem era aquele interlocutor que puxava para si, em particular interlocutoras. Apertava a mão, beijava e se despedia só faltando dizer: “daqui a pouco nos vemos em casa!”.
Nem é questão de ser mais ou menos gentil, educado, civilizado, humano. É simplesmente ser o que não é para ter algo em troca. De preferência, um votinho a mais. Mister-simpatia, não é mesmo? Quantos destes arregimentam fã-clube só na base do apertinho de mão, tapa no ombro, abraço e, claro, beijo estrelado? Se tem quem gosta disso, o beijador não vê razão para não exercer sua beijoquice interesseira.
No entanto, o tipo, quando instado a mostrar a que veio e, especialmente, a dar uma resposta a uma solicitação, por mais simples que seja, se recolhe. Se faz de morto atrás de, quem sabe, uma tribo de aspones. Claro que sua atitude vai depender do ibope que receberá – se a solicitação chegar de um endereço que mais importante para seus planos, o beijador profissional fará o impossível para marcar presença.
Fico muito mal-impressionada com este tipo de ação. Ainda mais se, em torno deste tipo, volitarem assessores conhecidos da gente, e que, a grosso modo, são pagos para saber o que é endereçado direta e publicamente a seu patrão do momento e para instá-lo a ser, no mínimo, correto. Eu já deveria, aliás, estar cansada de me aborrecer com estas atitudes. Infelizmente pra mim, não aprendi a deixar pra lá. Mesmo sabendo que a reivindicação de hoje terá o mesmo destino da anterior.
Aí, passo pelas esquinas, e vejo “a militância”, paga ou não, balançando bandeiras de candidatos e me divirto ao ver que um dos “militantes” consegue ser tão, mas tão focado, que até bate bola com um garoto que está próximo. Com certeza, seu candidato merece este desprezo.
Ainda vamos ter de ver muitas gerações nascendo para fazer da chamada “classe política” um motivo de real orgulho, de cumplicidade para o bem comum, de genuína humanidade. Enquanto tivermos a conduzir nossos destinos, em esferas municipal, estadual ou nacional, gente que só quer fazer de conta, não tem lei de ficha-limpa que dê jeito. O negócio é preparar o lenço para limpar a mão e o rosto babados pelo beijador profissional. Eca.
