A Índia completará sessenta anos de independência este ano. Mas isto pouco afetará os 15 milhões de indianos que freqüentam diariamente os cinemas, preferencialmente para assistir dramas. Um cinema qualquer, num bairro popular de Madras, no sudeste da Índia. Imenso (mais de mil lugares), como a maioria das 20 mil salas de projeção do país. E repleto – as poltronas foram tomadas de assalto -, as cadeiras suplementares rangem na última fileira. Um bebê chora, um grupo se agita em torno do que parece ser um piquenique em família, dois homens saem para fumar um cigarro no patamar da escadaria.
Um domingo como tantos outros na Índia, com um número de espectadores sem rival. Ruídos, murmúrios, movimento incessante – quem quer que tenha assistido uma projeção em Bombaim, Madras ou Bangalore (os três pólos cinematográficos do subcontinente) deve lembrar-se da intensa vida nas salas de cinema: comunhão geral e murmúrios de aprovação quando o “mocinho” dá uma lição ao rival com um chute certeiro, aplausos quando um pai humilhado dá uma magistral bofetada – finalmente – em sua filha indigna, emoção e fervor na cenas de canto e dança, revividas pela platéia em transe que, sem hesitar, interage, parabeniza ou repreende os autores. Um cenário que deixaria qualquer ocidental estarrecido em sua poltrona.
Imensa feira de imagens
A razão de o cinema fazer parte da cultura indiana é, podemos dizer, seu caráter impuro. Desde o início os indianos adotaram – e adoraram – esta arte capaz de, durante três horas, unir representação, dança, música, romance e calor épico. Os filmes nunca foram considerados uma novidade, mas um prolongamento natural do pictórico natural de seus deuses, as artes tradicionais, marionetes e lanterna mágica. Eles sequer recordam a contribuição de Lumière ao cinema.
“A Índia sempre foi, ao longo dos tempos, uma imensa feira de imagens”, observa Joel Farges, produtor no estado de Kerala. “De mandala jainista (pinturas de paredes), e tkangkas (pinturas budistas tibetanas), do teatro de sombras às danças, o país produz imagens de seus deuses e representações das histórias a eles associadas desde os tempos proto-históricos. Hoje,com seus dramas leves, modernizou-se.” Neste tonel em que se fundem continuamente culturas regionais, e temas tradicionais ocidentais “modernos”, o psicanalista Sudir Kakar vê principalmente “a principal forma de uma cultura pan-indiana nascente”.
O milagre econômico
Começou em 1991, quando o Ministro da Economia da época e hoje primeiro ministro indiano, Manomhan Singh, decartou o “socialismo democrático” dos fundadores do país. Até ele chegar ao cargo, grandes setores da indústria indiana eram estatais. Singh começou a privatizar empresas e a liberalizar os mercados. O setor de informática floresceu desde o final dos anos 90 e a economia em geral cresceu em média de 8% ao ano nos últimos. Mas a Índia quer ultrapassar a China, com seus 11% de crescimento. Hoje possui 1 bilhão e 13 mil habitantes, de acordo com o censo de
Hollywood quer sua parte
As 20 mil salas de projeção são um atrativo poderoso para Hollywood, muito mais do que na China, onde o cinema ocupa um lugar secundário. A idéia é fazer filmes com diretores e atores indianos para atrair as platéias. Com o encolhimento das platéias nos Estados Unidos e o inchaço das bilheterias indianas, Hollywood quer explorar este novo mercado. Mas os filmes feitos na Índia abocanharam 95% das vendas de entradas em 2006, de acordo com a PricewaterhouseCoopers. Os filmes domésticos também dominam nos Estados Unidos, mas os americanos respondem por apenas 35% das bilheterias na França, 33% no Japão e 12% no Reino Unido.
A Sony já está produzindo “Saawarya”, com o diretor Ah Sing: “Pensei que eles iam mudar alguma coisa, mas não mudaram nada”. A Walt Disney prepara seu primeiro filme de animação e a Warner Brothers organiza seus primeiros projetos. “Não viemos para mudar nada”, afirma Richard Fox, diretor da Warner. Mas existem os descrentes, como Tyler Cowen, autor do livro “Como a globalização está modificando as culturas mundiais”. Diz ele: “É inusual para Hollywood copiar o estilo nativo de forma tão exata por uma razão. Geralmente não funciona”.
(Com Le Monde Diplomatique, Herald Tribune, Indian Population).


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