Tenho acompanhado as movimentações dos jogadores de futebol brasileiros, que criaram o movimento Bom Senso F.C., em busca de um calendário minimamente humano de competições. E, principalmente, de acordo com as demandas deles, jogadores, que ao fim e ao cabo são quem move o espetáculo por onde circulam milhões de reais. Até aí, tudo bem.
Porém, um fato me chamou a atenção nas notícias de ontem. No site do Estadão, na seção onde aparecem uma foto e uma notícia após a outra (todos as páginas de internet de jornais têm esta seção), aconteceu o seguinte: o jogador Juninho pernambucano aparecia na foto 1, fazendo um gesto obsceno para a torcida adversária, flagrado no exato momento. Na foto 2, aparecia ele, na companhia de outros três jogadores, divulgando uma ação do Bom Senso F.C. Incrível! Aquele mesmo jogador a quem faltara a educação e o bom senso estava sorridente, ao lado de outros três colegas, divulgando as ações do Bom Senso F.C. Este tipo de situação só poderia ter ocorrido no Brasil, onde o inaceitável se transforma em rotina e, na maioria das vezes, em vantagem.
Fôssemos um país sério, o Bom Senso F.C. seria abortado naquele exato momento em que um de seus líderes (diga-se ainda, com passagem pela seleção brasileira de futebol e um jogador experiente) fez um gesto com um moleque para a torcida adversária. E este gesto, feito sem que o jogador se importasse se seria fotografado ou não(e qualquer um sabe que em uma partida de futebol, absolutamente todas as imagens são capturadas), para mim soa como uma bofetada na cara de todos, como uma cuspida na cara da sociedade. Mas qual o resultado desta atitude, na prática? Nenhum.
Porque os torcedores do seu clube não farão nada. Continuarão a louvá-lo como seu representante, apupá-lo nas arquibancadas. Os torcedores da torcida adversária, muito menos. Excetuando os xingamentos que ele ouviu no momento em que fazia o gesto, nada mais vai acontecer. A CBF, organizadora e mandatária do futebol brasileiro, nada fará igualmente. Ninguém. Ficarão protestos muito isolados como o desta coluna, como três torcedores gritando na arquibancada de um estádio vazio. E assim segue o Brasil, como num filme de Fellini, La Nave Va, à deriva de si mesma.

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