Somos todos bovinos, não tenho dúvidas. Todos seguimos a manada. Ô ô, vida de gado. Na realidade, o ser humano se desloca de acordo com a maioria. Se a maioria vai pra esquerda, lá vamos nós. Para a direita? Mudamos, então. Noutro dia eu estava naquela vida de esperar pela fila de carros, na saída do estacionamento de um shopping da cidade, quando minha namorada notou e disse: “Por que estão todos em fila na mesma cancela? Ali tem uma cancela vazia”. De fato, saí de trás de uns oito carros e fui direto para a cancela vazia, passando sem problemas.
Pode ser uma espécie de preguiça, pois se nos movemos com a manada estamos praticamente abdicando de pensar. Também pode ser proteção, pois se estamos no meio da manada, da multidão, nos sentimos protegidos. Tanto é assim que é muito comum indivíduos se valerem de multidões em manifestações(torcidas de clubes de futebol, comícios, shows) para fazer coisas que não fariam se estivessem sozinhos. Então estamos conversados. Pegue seu pasto e vamos ruminar, companheiro. Ou não, se preferirmos pensar.
Pensar significa a gente romper com uma série de coisas. Sair do estado de inércia, do comodismo e ver se não estamos fazendo como milhões de moscas, apenas. Pensando a gente cria. Criar é uma maneira de se opor ao que está feito. É um passo rumo ao desconhecido, que pode ser bom ou ruim. Assim, a manada nos protege. Mas nos aprisiona e emburrece também.
Já o nosso lado criança: adoramos ganhar brindes, seja lá o que for. Noutro dia ainda eu conversava sobre isto e meu interlocutor relatou que em eventos de médicos, por exemplo, ele havia visto especialistas conceituadíssimos em fila para pegar um brinde. E aqui não se trata de atribuir algo negativo aos médicos, de forma alguma. Se trata – isto sim – de usar apenas como exemplo o comportamento que todos temos. Basta ver, também, nosso comportamento na beira da praia. Passam aquelas blitze de empresas de telefonia, provedores de internet, empresas de energia elétrica, e lá estamos nós, querendo ganhar o mesmo que o nosso vizinho ganhou. Mesmo que seja algo tão útil quanto um afiador de colheres. Não importa. Nós queremos o nosso, ora!
O aspecto lúdico e infantil dos brindes nos seduz. A possibilidade de ganharmos algo de graça, então, nem se fala. Talvez entre junto um pouco da Lei da Vantagem(para os mais moços, é uma “lei” que ficou imortalizada por uma propaganda do jogador Gérson, da seleção brasileira tricampeã mundial. Em um comercial de TV, ele dizia que “brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, certo?”), em que sempre queremos ser os mais espertos. Mas aí a coisa se corrompe e pode virar o perigoso e irresponsável hábito de alguns(felizmente a minoria) de nossos motoristas de transitar pelo acostamento quando há um congestionamento. Mas, até uma certa medida, querer ganhar vantagem pode ser algo inócuo para os demais.
Bois, crianças, o que será mais que somos?

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