Como já comentei semana passada, estou passando em revista minha rica e estimada coleção de revistas Imprensa, que guardei, durante 4 anos, desde o número 1. Releando a de fevereiro de 1988, há poucos dias, encontrei matéria sobre os 50 anos do serviço brasileiro da BBC. Os ouvintes “pegavam” a rádio britânica só pelas ondas curtas e as notícias, durante o Estado Novo, se tornaram as mais confiáveis por estarem fora do alcance da censura de Vargas. Fiquei pensando: quem ouvirá a BBC, hoje?
O próprio artigo da Imprensa, 30 anos atrás, afirmara que “ao completar 50 anos, a BBC não é mais imprescindível ao Brasil” e o próprio então responsável pela programação do serviço brasileiro, Mick Delap, dizia que um dos maiores problemas era estar a estação longe do público brasileiro, sem recursos para publicidade ou pesquisas detalhadas de audiência. Hoje, a emissora está disponível na internet, em diferentes línguas e seu segmento voltado ao Brasil conta, inclusive, com vários jornalistas gaúchos.
Vai longe o tempo em que os boletins de cinco minutos chegam às rádios que os reproduziriam na forma de disco ou fita cassete – em 1988, mais de 300 emissoras usavam regularmente o serviço que foi aberto com uma notícia nefanda: “O senhor Hitler entrou hoje à noite em Viena”, era a manchete do dia 14 de março de 1938, dada pelo jornalista Manuel Braune, o “Aimberê”, abrindo as transmissões em português para o Brasil.
O portal da BBC historia que, no período pós-guerra, “a redação brasileira começou a transmitir um total de 3 horas e 45 minutos, diariamente”, citando o escritor e jornalista Antônio Callado como uma das estrelas da equipe que recebeu, então, entre visitas ilustres, Villalobos e Carmen Miranda. Mas a América Latina viria a merecer mais atenção do Serviço Mundial da BBC na década de 60 quando, novamente, podia ser a voz sem censura num continente sob o tacão das ditaduras. “Relatamos os constantes abusos dos direitos humanos no Brasil – casos de tortura, por exemplo. O governo brasileiro, dominado pelos militares, nos enviava queixas constantes sobre o nosso noticiário”, enfatiza o portal.
Agora também em ondas médias e FM e, claro, na internet, a emissora, que tem Ivan Lessa e seu jeito muito especial (e muitas vezes quase incompreensível) de falar, a voz mais conhecida.
No cardápio do portal, há um curioso curso de inglês, que abrange o inglês no noticiário, futebol e comercial. A lista de parceiros inclui a FM Cultura, da Fundação Cultural Piratini, a Rádio Guaíba e o JC Online, do Jornal do Comércio, por aqui.
De volta ao texto de Oscar Pilagallo Filho, me chama atenção a informação: “em breve o Brasil deverá se tornar o país com o maior número de estações de rádio no mundo, ultrapassando a marca dos três mil e tirando o primeiro lugar dos Estados Unidos”.
Sobre a tão propalada isenção do serviço, que não quis saber de propaganda política em suas transmissões, há a história curiosa sobre o conflito de disputa sobre as Malvinas/Falkland: a BBC teria sido, então, em 1982, criticada pelo governo de Sua Majestade por prestar um “desserviço” ao país, ao registrar as duas versões da guerra, referindo-se sempre às ilhas pelos nomes inglês e argentino.
Outra informação, bem mais pesada, dá conta que a então primeira-ministra Margareth Thatcher tentou convencer o Parlamento a terminar com o serviço brasileiro. Não conseguiu, mas reduziu a transmissão diária de duas horas e quinze minutos em uma hora.
Quanto ao Brasil como matéria informativa, continuamos aparecendo mais pelo ruim do que pelo bom. O portal exibe, nesta sexta, uma reportagem de Luis Fernando Ramos de Oliveira, cuja base é Viena, falando o aumento de inquéritos envolvendo brasileiras vítimas de tráfico para exploração sexual no exterior, outra, de Geraldo Ribeiro, de Tóquio, sobre a prisão de brasileiros acusados de roubo de carros no Japão, e, não poderia faltar, outra sobre a violência no Rio, reproduzindo reportagem do The Guardian.
Desse jeito, não tem fleuma britânica que chegue a tempo.
