Meu pai, seo Waldemar, a caminho do Hospital Santa Clara para colher sangue e ver como anda seu PSA, por volta de dez da manhã desta sexta, me disse: “Não tem quem ganhe do Brasil”. Horas depois, sentado diante da tela da TV, sorumbático, quebrou nosso silêncio para dizer: “Eu achava que ninguém ia ganhar do Brasil”. Daí, cansado, coração partido, desiludido-da-silva, foi tirar a sagrada e justa sesta de quem já viu e viveu tantas Copas do Mundo em oito décadas de vida.
Torci e torcerei sempre pela Seleção Brasileira, seja quem for o técnico, sejam quais forem os jogadores, seja quem for o presidente do Brasil a quem ela sirva politicamente. Acho hipócrita e blasé torcer o nariz e dizer que ah, não muda a minha vida então que se ferre essa coisa de Copa do Mundo. De fato, não muda minha vida quem leva a taça, pois quem lucra, ganhando ou perdendo, é quem está dentro de campo e aqueles que grudam no elenco para dele tirar vantagem, em especial anunciantes e os que fazem suas campanhas publicitárias. Para esses, é só ganha-ganha.
Fico muito mais preocupada, porém, é em entender o que move uma autoridade para ela ignorar a denúncia de ameaça de morte feita por uma grávida de cinco meses. Eliza Samúdio procurou a Delegacia da Mulher em busca de socorro, contra Bruno, o goleiro, alegado pai de seu filho. Destemida, ela fez, na ocasião, o devido exame de urina para provar que tinha sido forçada por ele, com arma na cabeça, a tomar um abortivo. Nada aconteceu contra o sujeito. Será irresponsabilidade, fascinação, conivência ou o quê? Está ficando comum: quem deveria defender o cidadão que se diz lesado, e também a própria lei, se curva a um Adriano, que faz pose com metralhadoras de brinquedo para fotos, a um Vagner Love que justifica amizade com traficantes sem mudar de expressão, ou a um Bruno que, frontalmente acusado por uma namorada grávida, permaneceu e permanece impune. São intocáveis, esses caras. E a troco de quê merecem esta consideração? Por serem jogadores de futebol de sucesso, por darem “alegria ao povo”, por serem vencedores da adversidade provinda de berço miserável?
Será por isso que eles podem, livremente, dar, como o goleiro Julio César, telefonema para chefe de tráfico (a quem tratou como irmãozinho) e pedir ajuda na procura de carro roubado? Por serem estes sujeitos vistos como os renascidos do inferno têm eles o direito de debochar de quem vive decentemente e, a bordo de seus carrões, à beira da piscina de seus sítios ou do alto de suas coberturas, simplesmente rir da lei? Acho que podem. Não deveriam, mas estão podendo.
E tanto podem que quem fica sendo julgado não é o abusador e sim o abusado, como acontece com a ex-namorada do tal goleiro Bruno, a garota desaparecida que deixou gravada, na internet, sua denúncia, faz quase um ano. As mídias, falsamente preocupadas com o destino de de Eliza Samúdio, despejam os vídeos em que ela exibe abertamente seus namoros e casos, revelam que até filme pornô ela fez. Certamente, foi isso o que levou a desprezar sua denúncia os que a atenderam na delegacia, os moralistas de cuecas que devem achar que ela era do tipo maria-chuteira, fez filho com boleiro para ter fama e dinheiro e, por isso, merecia ser punida.
Bruno, o denunciado legalmente, não está preocupado com nada. Eliza Samúdio sumiu. Levaram o filho dela para uma favela, e esta crueldade não chamou atenção de uma mídia que fosse.
Bruno, afinal, é ídolo. Ele é igual a Adriano, que viajou para a Itália como um homem de bem. Igual a Vagner Love, que certamente continua a freqüentar e ser freqüentado por criminosos cariocas. Bruno acha que mulher tem de levar porrada, disse isso sem o menor constrangimento para todo o Brasil ver e ouvir, ao defender o parceiro Adriano.
Eliza Samúdio deve ter levado as porradas que ele achava que ela merecia. Ela o acusou de, ao tê-la seqüestrado ainda grávida, ter se vangloriado de estar doidão por ter passado a noite fumando maconha e enchendo a cara – ela declara isso e mais, no vídeo que está no youtube e autoridade nenhuma levou a sério. Agora, duvidam até do exame de urina, querem “conferir” o resultado que aponta que sim, ela foi obrigada a tomar abortivo com um bebê de cinco meses na barriga.
Eliza Samúdio sumiu. O filho, repito tal o horror que me bate, foi jogado num barraco antes de ser resgatado pelo avô. Mas Bruno nem se abala. É boleiro, ganha bem, pega a mulher que quiser, com direito a porrada. E querem falar mal do Dunga que teve rédea curta com esta turma.
