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Bullshit, ou melhor, gringoshit

É rotina: nossos jornais e revistas semanais abrem espaços enormes pra elogiar livros ou filmes norte-americanos. Se fossem grandes livros e filmes, tudo bem. …

É rotina: nossos jornais e revistas semanais abrem espaços enormes pra elogiar livros ou filmes norte-americanos. Se fossem grandes livros e filmes, tudo bem. Por mim podem abrir várias páginas pra falar do Mark Twain, por exemplo, ou do John Huston. Meio antiguinhos? Então do Don DeLillo e Gore Vidal, ou dos irmãos Cohen e do Tim Burton. Ou de vários outros.

Mas não. Essas páginas são dedicadas à literatura popular mais descartável ou a filmes que cada vez mais se parecem com cópias aguadas de cem outros filmes que já eram cópias de outros cem anteriores. Por quê? Às vezes parece que se trata de jogadas de nossa imprensa com as editoras e distribuidoras. Mas em outras, talvez na maioria, parece mesmo falta de miolo dos jornalistas ou pura preguiça. É mais fácil copiar os releases das editoras e das distribuidoras. Pensar por conta própria é complicado, ir atrás de matérias dá trabalho e criticar é o modo mais fácil de se incomodar.

Vejam só. Esses dias, num sebo, encontrei Grana, grana, grana, do Ed McBain. Quando eu tinha uns quinze anos, li uma porção de livros dele: as aventuras dos detetives do 870 Distrito Policial. Levado pela saudade, comprei. Não devia. Era melhor ter ficado com a saudade.

Trata-se de lixo, do mais puro e completo lixo. Nem falo dos furos de lógica na investigação. Me incomodaram muito mais os truques baixos pra espichar o texto e conseguir um volume encorpado, como diálogos assim: “Está bebendo água?”, “O quê?”, Está bebendo água?”, “Ah, água!”, “Sim, está bebendo água?”, “É, estou”. Há dezenas de situações tão idiotas como essa que inventei. Em momentos mais descarados, ocupam quase uma página inteira.

Depois há cenas impossíveis de engolir. Uma mulher nua é devorada pelos leões no zoo. Como os bandidos colocaram ela lá? Pior, a troco? Se queriam fazer a dona sumir, qualquer buraco na beira de uma estrada seria mais eficiente. Os bandidos botam a mulher pra ser comida pelos leões porque isso é sensacional na opinião do Ed MacBain. Só. Mas a coisa não para aí. O pessoal do zoo retira os leões da ilhazinha pra polícia poder examinar os restos mortais. Adivinha se não esqueceram um leão. Pior, o leão salta sobre um dos heróis e é morto, na hora agá, com um tiro certeiro por outro detetive. Nem a série mais chinfrim de tevê teria coragem pra um lance desses. Ou teria? Acho que teria.

O livro todo só tem uma coisa boa. Pinta a CIA agindo do mesmo modo que os terroristas que combate. Acho isso um feito. Quer dizer, um americano admitir isso.

Na minha opinião, o melhor está na capa e na contracapa. Sim, sim, as opiniões “críticas”. Publishers Weekly: “McBain é tão bom que deveria ser preso por isso”. The Independent on Sunday: “McBain em grande forma”. Sunday Times: “McBain dá vida à mitologia urbana norte-americana”. The Sunday Telegraph: “Um dos melhores livros do gênero”. The Observer: “Impressionante”.

Impressionante digo eu. Os gringos, apesar de viverem fazendo filmes sobre alienígenas, pensam que estão sós no universo. Mais: pensam que estão sós no planeta Terra. Apenas um povo incapaz de olhar ao redor pode se entreter com asneiras como esse livro do MacBain, acreditar nelas e se congratular. É como o bebê mexendo no pingolim. Ele acha gostoso. É gostoso. Mas ficar a vida toda nisso, sem experimentar o resto? Me parece grave. Mas mais grave me parece nós aqui enlevados com a masturbação lá deles.

Questão de ouvido

Charles Kiefer disse que leva anos pra “redigir” um romance. Escritor e redator são sinônimos? Sei que os dicionários não fazem uma distinção clara entre escrever e redigir, mas acho que existe: uma agência de publicidade não contrata um escritor, contrata um redator; o escrivão redige um ofício, eu escrevo uma carta; o jornalista escreve uma reportagem, o funcionário redige o relatório. Deu pra pegar? Pelo menos pro meu ouvido há uma distinção clara. Pra mim, falar de redação, ao se tratar de literatura, é meio como aquela personagem num romance do Cortázar que, no meio da transa, se referiu a um problema de ovários.

Autor

Ernani Ssó

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