Mais parecia uma briga de moleques, quem assistia não conseguia acreditar. Era um vale-tudo na calçada. Valia dedo no olho tentando furar, soco na cara, chute nos culhão, ponta-pé na bunda, tentativa de estrangulamento, o que desse. Em segundos já se formava uma plateia de ocasião que olhava atônita, inerte, incrédula.
Os dois brutamontes rolavam agora pelo chão, um embaixo, outro em cima, a dar socos e tapas. Mata, mata esse filho da puta, berrava uma mulher. Jovem, bonita, pela ênfase que deu ao “filho da puta” só podia ser companheira do cara que estava em cima. Mata, mata esse desgranido, acrescentou, a boca tão retorcida que só faltava espumar pelas bordas. Mas cuspia, exalava perdigotos a cada sílaba.
O outro, o de baixo, não tinha torcida. No começo da discussão exclamara que não levava desaforo pra casa. Ainda mais partindo de um filho da mãe que até então pensava ser amigo. Não aguentava desaforo; tapa e porrada, sim. Resistia e bravamente, pode-se dizer, tal a fúria com que o amigo, ex-amigo, investia sobre ele, depois de conseguir imobilizá-lo com um jogo de pernas que aprendera provavelmente em alguma experiência com Muay Thai.
Mas o amigo, ex-amigo, também tinha seus recursos. E numa manobra digna de praticante de judô, conseguiu se livrar do opressor e virou o jogo. A luta, bem dizer. Agora era ele que estava por cima, soberano, a distribuir tapas, socos, cuspes e palavrões adequados à cena: Toma, seu filho da mãe. Seu cretino, seu cuzão, infeliz. Ai, ai, berrava o ex-valentão, para, para, vamos conversar. Conversar porra nenhuma, seu deagraçado, covarde, agora tu vai aprender o que é bom.
A plateia seguia impotente, olhos escancarados, bocas de medo e angústia, um potpourri de expressões. Não eram mais de meia dúzia, vindos sabe-se lá de onde, pois a batalha ocorria em um canto da quadra de esportes há muito abandonada.
Uma mulher, que tinha cara de uns 50, ousou tentar interferir. Com palavras, claro, pois capacidade para separar os brigões não tinha nenhuma. Parem, seus bostas, vão acabar se matando desse jeito, foi tudo o que soube dizer.
Mas que? Os lutadores não tinham nenhuma atenção voltada para o pequeno e desconhecido público. Um precisa dar todo o foco na tentativa de se proteger e conseguir uma posição melhor. Nem ouvia o que a companheira seguia gritando, ora tentando estimular o namorado, ora ofendendo cinco gerações do outro. Este outro, afundado naquela fúria que cega, era incansável na distribuição de socos que já faziam nariz e supercílio do oponente sangrarem. Quando o sangue jorrava pela face, uma mini cachoeira avermelhada, se assustou, e mais assustado ainda ficou ao ouvir a sirene.
Que bom, a polícia tá chegando pra acabar com essa selvageria, disse o velhote de uns 60 e muitos, que até então dava sinais evidentes de que não desaprovava o que acontecia. Virou leão com a aproximação da polícia. Que não teve muito o que fazer, a não ser chamar a ambulância para atender o que sangrava. O outro decidira que seria mais prudente vazar, e o fez com uma surpreendente rapidez.
A velhinha de bengala, única testemunha ocular do início da confusão, permanecia ali, patética, repetindo para quem quisesse ouvir: Não sei direito, só vi que tudo começou quando um enfiou o dedo no cu do outro.


One Comment
Excelente, final hilariante.
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