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Caiu na rede, é peixe

Enquanto os monges, que apareceram em prantos, em todas as telas do mundo, garantem seu pão, água (e luz) no Tibet, graças à extrema …

Enquanto os monges, que apareceram em prantos, em todas as telas do mundo, garantem seu pão, água (e luz) no Tibet, graças à extrema bondade das autoridades chinesas, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se preocupa em condenar “firmemente” o deputado holandês que ameaçou e cumpriu: tocou na internet seu filminho intitulado Fitna , em que critica o Corão e reproduz discursos de líderes islâmicos nada pacifistas. Claro que os representantes das comunidades islâmicas chiaram, classificando o curta-metragem de “insulto à consciência de um milhão e meio de muçulmanos”, com o cuidado de enfatizar que é preciso distinguir entre liberdade de expressão e liberdade de insulto. O problema é saber onde fica esta fronteira.

A briga não é de hoje, Salman Ruschdie que o diga, e, há dois anos, foi a maior muvuca com a publicação de uma caricatura do profeta Maomé por um semanário “satírico” europeu. Os ofendidos querem justiça, em especial agora, na questão holandesa. Acontece que o governo holandês já havia dito que era contra a divulgação do filme. E aí, como fica? Zakaria al Cheikh, porta-voz do coletivo de defesa do profeta (sim, existe esta instituição), está pedindo aos países muçulmanos que denunciem campanhas hostis contra o Islã e que revejam suas relações com os países em que estas campanhas são veiculadas.

O filme de Gert Wildeers está sendo visto como uma vingança de alguns ocidentais contra a religião muçulmana, numa ação que teve apoio dos britânicos via a NDLR, que abrigou o vídeo. Como sempre, no rastro dos protestos dos defensores do Islã, chegam as ameaças que eles chamam de repercussões da difusão. O curta tem 17 minutos e o deputado alega que ele serve para mostrar o caráter que considera fascista do Corão. Até aí, poderia ser uma defesa de tese razoável, a ser combatida ou não. Só que o filminho pega pesado, mistura cenas dos atentados ao World Trade Center e aos trens de Madri com leituras de textos do livro sagrado e até depoimento de uma menininha muçulmana de quatro anos de idade, que chama os israelitas de porcos.

O vídeo ficou pouco tempo no ar, mas o suficiente para ser copiado sem limites, como sói acontecer nestes tempos de web “interativa”. No Youtube, várias cópias (contei cerca de 1.480, um dia após o lançamento, que foi feito na quinta-feira) que variam de dois a dez minutos estão disponíveis, mas só abrem depois de o usuário confirmar que é maior de idade e alerta para cenas que “podem ser ofensivas e desaconselháveis a menores”.

O que fica de mais importante, de todo este imbroglio? Segundo meu achismo, muito mais que a possível má-intenção do político holandês, louco para botar fogo na fogueira nacionalista e na diversidade religiosa, destaca-se o fato que só tem um jeito de segurar qualquer ato, nestes tempos de realidade virtual: evitar que ele, literalmente, caia na rede.

Depois disso, nem mesmo o temor a represálias ou o respeito a uma crença é capaz de evitar que imagens ou palavras se tornem de domínio público. Aliás, Cicarelli sabe muito bem como isso funciona.

Autor

Maristela Bairros

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