Soube, em Garopaba, que os argentinos chamam a carambola de carâmbola. Fui contaminado na hora. Pra mim, agora, é só carâmbola e com exclamação, porque pouco me refiro à fruta. Pra mim é uma interjeição. Abandonei os porras, os puta merda, os cacetes. A vantagem de carâmbola é que posso dizer com sotaque mexicano. Impagável.
Por falar nisso, sugiro a meus eventuais leitores que façam como eu, ao menos uma vez por semana, de manhã cedinho: diante do espelho, só de cueca ou calcinha, se for o caso, diga carâmbola fazendo caras sérias, cínicas, ternas, chorosas, ou cara de raiva ou desespero ou desânimo ou sei lá o quê, sempre com sotaques variados e sublinhando a palavra com gestos precisos. É o melhor dos mantras. Dez minutos disso e você se sente mais leve, pronto pra enfrentar o dia mais atribulado.
O Brasil? Carâmbola, que país!
Linguagem
Um personagem do Cortázar, em El examen, diz que é preciso tomar cuidado com a linguagem, porque não é a mesma coisa um olmo cheio de rouxinóis e uma polenta com passarinhos.
Velhos combatentes
Escrever é uma forma de exploração, correto? Daí você volta de selvas terríveis, onde conviveu com canibais, lírios, pirados, e o que acontece? As pessoas podem saber tudo dessa selva. Mas não estiveram lá. E tem um momento que você olha no olho do cara e precisa que ele tenha estado lá.
Contar uma história
Duas e três, leio entrevistas de escritores que, ao falarem do livro que estão lançando, declaram que não queriam “apenas contar uma história”. Tsk tsk tsk, penso automaticamente. Sabe o que é? Com tantos anos de janela, li vários desses livros e comprovei, com tristeza, que os autores não têm a menor ideia do que estão dizendo.
Se você não quer contar apenas uma história, a gente pensa que vai contar uma história com algo mais, confere? Esse algo mais em geral se refere à linguagem. Mas aí a gente vai lá, lê o dito cujo e quase sempre não encontra história nenhuma, ou uma história toda capenga, e a linguagem é a enganação de sempre, aliterações e frases arrevesadas ou cheias de imagens que eram pra ser poéticas mas são apenas cafonas.
Você se satisfaz apenas com linguagem? Eu não. Apostar apenas na linguagem me parece tão insatisfatório como apostar apenas numa historinha. É como andar numa cadeira de rodas sem rodas. Você até pode andar, mas duvido que seja cômodo.
Todos os livros experimentais que continuaram a ser lidos dez anos depois de lançados são os que não abandonaram o narrativo. Depois que a moda acaba, os livros experimentais são os mais chatos, só especialistas, historiadores da literatura têm saco pra ler. Como dizia Borges, o narrativo é um dos prazeres essenciais do homem. Temos o dever de cuidar dele. Se os bons escritores o deixam de lado, os leitores vão ao mercado negro, à lista dos mais vendidos. São como os bichos em busca de sal, capazes de lamber uma tábua ou algo pior em sua ânsia.
Tem outra coisa. Todos, fora os best-sellers mais feijão com arroz, não querem contar apenas uma história. Por isso a gente não precisa anunciar aos quatro ventos, ainda mais como se tivesse uma batata na boca. Depois, é um tédio notar que os que desprezam as histórias são justamente os que não conseguem contá-las. Eu não sou um bom contador de histórias e me penitencio diariamente por isso.
Se você tem vergonha de narrar, deixe a ficção de lado. Ou invente novos modos de narrar, mas pra isso, é bom avisar, você precisa conhecer todos os truques antigos. O que você não pode é querer eliminar a narração como se assim o problema estivesse resolvido.

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