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Carnaval, orgias e heroínas

Ainda o Carnaval – Foram pelo menos três derrotados no desfile da Acadêmicos de Niterói: a escola, que foi rebaixada, Lula, que acabou enredado com o enredo, e a Rede Globo, que apanha dos lulistas porque não cobriu o desfile como eles queriam e dos bolsonaristas porque cobriu o desfile que era uma manifestação política. Os lulistas mais radicais acreditam que o júri era um bando de bolsonaristas venais, daí o resultado contrário às expectativas.  Na verdade, o rebaixamento da escola deveu-se não apenas ao enredo polêmico, mas porque o desfile, que é a amostra para o público e os jurados do conjunto da obra, foi pateticamente ruim. Tanto assim que a Acadêmicos de Niterói ficou na lanterna do começo ao fim da apuração, recebendo notas baixas na maioria dos quesitos. No Planalto, o que ficou da empreitada pode ser resumido naquele dito popular. se arrependimento matasse! Pelo menos o episódio serviu para renovar a safra de memes político-carnavalescos e, enfim, é só Carnaval.

Epstein x Vorcaro – A sacanagem campeia livre nos altos escalões, não apenas em Terra Brasilis, mas também na maior democracia mundial, os EUA. E sacanagem, no caso, deve ser tratada com significado amplo, da corrupção envolvendo os poderosos, mas – e ´principalmente – pelas revelações de que é incentivada e sustentada por festinhas capazes de envergonhar quem participava das orgias de Calígula. Talvez eu tenha exagerado um pouco, mas o certo é que os dois nomes que despontam nesse cenário construíram suas poderosas redes de relacionamentos na base de favores sexuais. Lá, o epicentro girava em torno de Jeffey Epstein, que acabou preso e foi encontrado morto na cadeia.  Aqui,  emergiu a figura de Daniel Vorcaro, do Banco Master,  ameaçando levar de arrasto gente de peso dos três poderes da República. A diferença entre os dois casos é que nos EUA as “festas” eram frequentadas até por ex-príncipes  e ex-presidentes. Aqui a relação de envolvidos parece ser um pouco mais modesta, pelo que se sabe até agora. Outra diferença está no tratamento dado aos personagens: enquanto até o festeiro irmão do rei britânico foi preso, aqui Vorcaro só aceita depor na CPI do INSS se puder viajar num jatinho particular.

Nossas heroínas – Desde que Ayrton Senna nos deixou estamos carentes de heróis brasileiros. Os heróis servem de referência pelas suas atitudes e posicionamentos, firmeza nos enfrentamentos, qualidades profissionais e virtudes pessoais.  Houve um tempo em que os heróis respeitados e cultuados eram os senhores da Guerra, depois vieram os estadistas e agora os grandes heróis, aqueles em que as pessoas se espelham, são recrutados no Esporte e na Cultura, o que talvez represente uma evolução do gênero humano. O problema dos desportistas-heróis é que no Brasil eles têm prazo de validade. Já tivemos Gabriel Medina, no surfe e outros menos votados. A turma do futebol como Neymar e Vini Jr não empolga mais e, dos outros esportes, o pessoal do vôlei se sobressai mas não se mantém nos corações e mentes dos brasileiros. O jovem  tenista João Fonseca  pintou bem, mas ainda está longe do pedestal da idolatria de um  Guga Kuerten, assim como o medalhista de ouro nos Jogos de Inverno, Lucas Pinheiro, que nem brasileiro é e que, literalmente, já tombou nesse ranking.  Nem tudo está perdido, entretanto: as multicampeãs fadinha Rayssa Leal, no skate  e Rebeca Andrade, ouro na ginástica artística, estão no lugar mais alto do podium, servindo de exemplo e inspirando as novas gerações.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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