Creio que desde os tempos da publicação de uma fotografia do zagueiro colorado Figueroa nu no vestiário, na Zero Hora, um fato jornalístico “indireto” não provocava tanta polêmica entre profissionais de comunicação e jornalistas. Que o fato foi grave não resta dúvida, mas o que milhares de pessoas contestam foi o desfecho, a punição, justa para alguns, desproporcional para outros e radical para a maioria. Todos concordam que houve exagero nas manifestações tanto do Kenny Braga como do Sant’Ana, mas por que a RBS decidiu cortar a cabeça de um e preservar o cargo do outro? Se os dois cometeram falta grave a punição não deveria ser igual? Não teria sido mais justo que os dois fossem afastados por um tempo determinado de igual tamanho?
Sou colega e amigo do Kenny e do Sant’Ana há quase 40 anos. São dois talentosos profissionais, mas, igualmente, passionais por estarem mais envolvidos com seus clubes de preferência do que com o jornalismo. Mas o jornalismo, em certas circunstâncias, também depende de um certo “circo” que se arma em torno de alguns programas. E o Sala de Redação, ao longo do tempo, foi se transformando, mudando seu perfil de enfoques, tornando-se mais um programa de entretenimento, onde os egos se destacam ao invés do debate consistente. Uma pena que tenha perdido o rumo e o resultado desse processo tenha sido uma briga entre amigos e colegas.
Imagino como o velho Cândido (Norberto), o primeiro mediador do Sala, ou mesmo o Professor (Ruy Ostermann) teriam reagido diante de tal circunstância, ou teriam permitido que a situação chegasse a tal ponto. Fico em dúvida sobre a validade desse tipo de foco de um programa. Lembro de outro episódio que ficou famoso na crônica esportiva, mas não envolvia jornalistas/cronistas, mas dirigentes. Foi num Jogo Aberto, da antiga TV Difusora, quando dois dirigentes do mesmo clube, José Asmuz e Gilberto Medeiros trocaram socos durante uma apresentação.
O futebol e a política costumam impregnar o cérebro dos mais comedidos debatedores, transformando personagem de fina estampa em gladiadores. Quando se trata de jornalistas, que têm a responsabilidade de dar um exemplo de comportamento, pois estão à frente de veículos que influenciam milhões de pessoas, a conduta deve ser pautada pelo respeito e comedimento. Discutir, divergir, contrapor, e até mesmo “tocar flauta”, faz parte do processo e todos sabem que um dia é da caça e outro do caçador. Como um destes cronistas vai ter moral para criticar torcedores que brigam no estádio por discordarem um do outro? Como poderá fazer algum tipo de observação, se ele próprio não dá o exemplo!
Por isso, a falta foi grave, mas a punição, creio, foi exagerada. Principalmente, com o Kenny Braga. O Sant’Ana é quase membro da família Sirotsky e isso pesou. Mas o Kenny tem mais de 30 anos de casa e merecia ser tratado de forma diferente. Punir sim, mas de forma justa. E a substituição leva mais um não jornalista para o programa. Essa invasão de pseudo-profissionais no jornalismo – isso é jornalismo? – vem ocorrendo de forma gradativa, constante e inexorável, desde os tempos em que o Osvaldo “Foguinho” Rolla passou a integrar o Sala. Hoje esse cenário é corriqueiro, pois a Band também tem (e teve) ex-dirigentes nos quadros do Jogo Aberto. A Guaíba procura respeitar um critério jornalístico, e merece aplausos, mesmo que tempos atrás tenha convidado um ex-técnico, Otacílio Gonçalves para ser comentarista.
Ainda assim, prefiro que o Sala de Redação continue forte, pois longe estou de exigir perfeição, pois qualquer iniciativa que se tome está sujeita a avaliações diferentes, pois as pessoas pensam e são diferentes. O que se quer é que pelo menos os debates tenham um bom nível, um foco jornalístico consistente e a disputa de egos não prevaleça. Por nós, colegas e ouvintes e pelo bem do jornalismo daqueles que criaram este fantástico programa há 40 anos. Viva o Sala!

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