A prefeitura de Porto Alegre lançou, no final de semana passado, uma simpática campanha denominada Cata-Cacaca, para que os donos de cachorros retirem os cocôs que seus animais deixam pelo parque. Para evitar a transmissão de uma série de doenças (em especial para aqueles que, como eu, têm filhos pequenos) e de uma série de inconvenientes. Quer coisa mais desagradável do que pisar em cocô de cachorro? Acho justo. Já que os donos de cachorros querem que seus animais fiquem limpos, tanto que agora andam de sapatinhos, nós, que não temos animais, também queremos limpeza.
Para falar a verdade, não sei por quê só agora está havendo esta preocupação. Há alguns meses, ouvi a correspondente da Rádio França Internacional (transmitida pela Bandeirantes), que os franceses sofriam violentamente com este problema. As pessoas levam seus cachorros para passear, eles fazem suas necessidades e os donos não limpam. O resultado, além de pessoas passando o sapato na grama (naquele gesto clássico), é espantoso. São algumas toneladas de dejetos lançadas diariamente nas ruas, sem qualquer tipo de tratamento ou cuidado. Felizmente, neste caso, estamos sendo mais evoluídos do que os franceses.
Com o aumento da concentração populacional nas cidades, que ocorreu ao longo dos últimos anos, o ser humano teve que reaprender a conviver. Limitar espaços, respeitar o outro, instituir regras.
Juntamente com o aumento populacional nas grandes metrópoles, houve o aumento de cães. As pessoas hoje têm muito mais cães do que antes. Um exemplo: antigamente, só tinha um cachorrinho quem morava em casa. Hoje, não mais. Tanto assim que muitas convenções de condomínios que tinham restrição à entrada de animais foram reformuladas, para aceitar a entrada, desde que os animais não prejudiquem a harmonia do condomínio. Os pequenos cães invadiram os apartamentos. Em especial, o poodle. Quer maior sucesso de “marca” do que poodle? Talvez por uma época os pitbull tenham ameaçado o Top of Mind do poodle, mas terminaram perdendo.
Se temos mais pessoas e mais cães, precisamos reorganizar a vida em comum. Instituiu-se a focinheira para animais de maior porte. O uso da coleira (guia) obrigatório para TODOS os cães. E agora, o Cata-cacaca. Muitos ainda não respeitam nem a obrigatoriedade do uso da coleira, o que dirá focinheira e o recolhimento dos dejetos. Mas tenho certeza que um dia chegaremos lá, seremos uma sociedade mais evoluída e civilizada. Onde o espaço de cada um seja respeitado pelo próximo.
A preservação ambiental experimentou trajetória semelhante. Se lembrarmos, é muito nova a postura ambientalmente responsável. Foi somente a partir de uma tomada de consciência por parte das pessoas e empresas, de que ou mudavam ou íamos sucumbir como espécie na Terra, que as mudanças começaram a acontecer. Poluíamos deliberadamente e sem culpa, achando que a natureza era indestrutível. Começamos a ver que não, da pior forma: extinção de rios, espécies, transmissão de doenças, buraco na camada de Ozônio e efeito estufa. Resultado: as pessoas passaram a colocar a preservação na sua pauta de preocupações. As empresas que têm postura ambientalmente responsável são reconhecidas pelo consumidor e têm maior resultado nos caixas dos supermercados. Não deixamos de poluir, mas poluímos muito menos e com muito mais sentimento de culpa. Já é um grande progresso.
Com os cachorros e seus donos, está acontecendo o mesmo. Antigamente, os cachorros andavam soltos, faziam suas necessidades em qualquer lugar, iam à beira da praia e ninguém se atrevia a dizer nada ao dono. Hoje, não é mais assim. As pessoas protestam, reclamam, vaiam. Claro, muitos donos não estão nem aí. Continuam desrespeitando leis e, principalmente, o bom senso. Mas um processo evolutivo é, como o nome diz, um processo. Se faz a cada dia. Chegaremos lá.
Para as empresas, uma oportunidade: produção de focinheiras e equipamentos para recolher as fezes dos animais. Mais do que isto, oportunidade para empresas fabricantes de ração ou produtos para animais negociarem a criação de pequenos espaços nos parques, reservados exclusivamente para os cachorros. Imaginem que belo exemplo e que grande jogada de marketing. Ali, além de manterem os animais reunidos, poderiam ofertar seus produtos, mostrar seus lançamentos e fortalecer sua imagem não só junto aos donos de animais quanto junto à comunidade em geral. Que tal pensarmos nisto?

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