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Censura ao vivo, a última fronteira

A censura da TV ao vivo, quem sabe a última fronteira do cerceamento à liberdade de expressão, embora já esteja sendo praticada há algum …

A censura da TV ao vivo, quem sabe a última fronteira do cerceamento à liberdade de expressão, embora já esteja sendo praticada há algum tempo, estranhamente não tem recebido a devida atenção dos críticos da mídia. Para evitar surpresas em programas ao vivo, as emissoras atrasam a transmissão em alguns minutos. Quem dera fosse um problema técnico como o que faz qualquer programa chegar de cinco a seis segundos depois na tela de quem assina a Net Digital. No futebol é mais grave: os vizinhos já estão vibrando com o gol enquanto na TV do assinante do sistema supostamente mais moderno o atacante ainda avança em direção à grande área ou o árbitro discute a posição da barreira. O delay é um antigo problema de transmissões via satélite, o que às vezes provoca um efeito sucker and fucker, com voz e imagens desencontradas. Mas até aí é só ter paciência e, às vezes, conter o riso. A censura ao vivo é bem mais grave.

Consta que a nova manobra das redes americanas começou no Super Bowl, a decisão do futebol americano, no início de 2004. Janet Jackson, que fazia o show do intervalo, teve sua roupa puxada – em jogada ensaiada, é claro – por Justin Timberlake, com quem dividia o palco, e ficou com um seio à mostra durante cerca de dois segundos. Isso, somado a uma performance insinuante da irmã caçula de Michael Jackson, foi o que bastou para indignar a conservadora família americana, provocar protestos por todo o país e criar um novo monstro. Na transmissão da festa de entrega do Grammy, ocorrida logo em seguida, e para a qual, por sinal, Janet foi desconvidada, os executivos da CBS não tiveram dúvidas em utilizar o recurso do “ao vivo atrasado”.

O artifício coloca ainda mais poder nas mãos dos donos da mídia. Miríades de queixas sobre matérias mal-editadas por incompetência – a maioria dos casos – ou propositalmente distorcidas se acumulam nas redações desde a aurora do jornalismo. Para personalidades escaldadas, o programa ao vivo se convertia na única garantia real de que sua palavra iria ao ar tal qual fora dita. Para muitos jornalistas e apresentadores, também. A canhestra modalidade do ao vivo atrasado, mais uma inovação da Era Bush, acaba de revogar esta garantia.

Entidades de classe de jornalistas e assemelhados fazem tanto alarido por coisas menores, e têm passado ao largo de uma monstruosidade semelhante às câmeras que nos perseguem por toda parte e só intimidam os cidadãos do bem, pois os bandidos não estão nem aí para elas, alguns até sorriem e acenam antes de cometer o crime.

O ao vivo atrasado permite aos diretores de TV censurar qualquer opinião ou ato que contrarie as normas da emissora, que podem ter qualquer formato, ou o mero bom senso. Aí entra a velha questão: quem decide o que é adequado ou não? Quem decide se eu quero ou não ver o seio da Janet? Ou ouvir alguma bobagem dita por um rapper na festa do Grammy? Não há censura boa, censura é censura. O resto se resolve no controle-remoto.

 

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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