Dalton Trevisan levou dois prêmios este ano, o Camões e o Machado de Assis. Acho que ele mereceu. Um dos poucos que mereceu, por sinal. O que me deixa incomodado é por que levaram tanto tempo pra dá-los, se todos nós, leitores, sabemos que Trevisan é um grande escritor desde os primeiro livros? O homem está com quase noventa anos. Quando se começa a ganhar esses prêmios numa idade dessas, pode crer, a próxima notícia é a participação de falecimento. É sempre assim, não se reconhece o talento de alguém quando seria muito importante pra ele e não se dá dinheiro quando ele precisava. Nunca se sabe, mas eu, se fosse o Trevisan, mandava enfiarem esses prêmios naquele lugar.
Deu na tevê
Diogo Mainardi disse que morreu o maior escritor brasileiro: Ivan Lessa. Pois é. Bem Brasil, isso. O maior escritor brasileiro não escreveu.
Deu no UOL
O jornalista Carlos Leonam lembrou uma historinha do Ivan Lessa:
Conheci o Ivan no início dos anos 60, quando eu era diretor da [editora] Nova Fronteira. E ele era tradutor. Lembro que pedi a ele para revisar uma tradução, feita por um outro profissional, de Os canhões de Navarone. No dia seguinte, ele entrou no meu escritório e disse:
— Seu tradutor chamou yellow bastard [expressão equivalente a covarde] de bastardo amarelo. Não vou revisar essa porcaria.
Caras & bocas
Achei a resenha que fiz do livro Ivan vê o mundo (Objetiva, 1999), que publiquei por aí, em alguma revista ou jornal. Se ninguém entender nada, paciência. Uma dica? Imito, meio contra o Lessa, o estilo do Lessa. Ele entenderia essa brincadeira.
Ivan vê Ivan: crônicas de Londres
Ivan vê o mundo? Ivan não vê nada, Ivan sente tudo. Ivan vê Ivan, o tempo todo. Ivan vê o mundo? Se vê, vê rápido e rasteiro, depois fica ruminando, ruminando. Ivan está aqui, o mundo logo ali, na esquina, depois dos pedaços de livro, de filme, de letras. Ivan está aqui, o mundo um álbum de fotografias: Ivan olha, Ivan brinca, Ivan tem saudade, Ivan ranzinza. Ivan está aqui, o mundo uma fantasia, humor negro, humor absurdo. Ivan está aqui, o mundo do outro lado da porta, forçando a entrada: uma súbita e dolorosa revelação entre insônias. Ivan está aqui, o mundo foi uma tarde no cinema, depois na praia, nos anos 50. Ivan está aqui — epa, um senhor, como foi isso mesmo, com filha mocinha e tudo? —, o mundo indo pro brejo, como a vaca, como sempre. Ivan está aqui, um expatriado, o Brasil como um torturante band-aid no calcanhar. Ivan está aqui, ou melhor lá, aqui estou eu imitando Ivan descaradamente. Quanto ao mundo, me deem notícias, não sei de nada, não sei nem se existe. O mundo é um cineminha no fundo da nossa cabeça.
Sempre leio Ivan Lessa com prazer: a lucidez, os acessos de humor louco, silêncios como um encolher de ombros e a pose meio de lado, feito siri saindo de fininho, aquele mesmo olhar do homem que matou o facínora. Mais: a língua, a primeira flor auriverde, salve lindo pendão da esperança. Leio Ivan Lessa parando entre frases, com um sorrisinho de puro sadismo, imaginando tradutores no pau-de-arara, na cadeira do dragão, no cassetete puro e simples. Leio Ivan Lessa com pena: pobre dessa gurizada, não sabe o que está perdendo. Leio Ivan Lessa de saco cheio com o Ivan Lessa: quando ele vai criar vergonha na cara, quando vai parar de se fresquear, quando vai selecionar ele mesmo seus textos? Leio Ivan Lessa conformado: deixa o cara quieto no seu canto, um romance a mais ou a menos não fará diferença. Mas que dá vontade de pagar pra ver, dá. Nem que tivesse de fazer uma proposta indecente. Ele é duro, sei, calejado como Marlowe, mas dependendo da indecência da proposta, sei não, ia ficar mais sensível do que mocinha na saída de filme do Zefirelli.
Essas crônicas de Londres são o fino da bossa, mas há um Ivan muito melhor, pra mim ao menos. Mas não adianta insistir. Não empresto os meus recortes. Passar bem.
Negros
O que há com os negros dos Esteites? No cinema, digo. Falam desabaladamente nas comédias e nos policiais. Isso é tão insuportável como as perseguições de carros ou os tiroteios em que se gasta mais munição do que numa invasão no Oriente Médio. Não é só que essa falação fira os ouvidos da gente. É que quanto maior ela é, menos se diz. Pensei que podia ser um modo de os brancos difamarem os negros, mas não: filmes dirigidos ou produzidos por negros são iguaizinhos. Acho estranho porque em outros tipos de filmes os negros falam normalmente.
Palestras
Minhas conversas com crianças ou professores sobre literatura aparecem como palestras na papelada burocrática. Não gosto da palavra palestra, mas, sei, conferência seria muito pior. Segundo o Houaiss, uma das acepções de palestra é debate cultural. Nesse sentido eu gosto, mesmo que muitas vezes não haja debate nenhum, ou muito pouco.
O que o Houaiss não registra é o arzinho metido a besta da palavra, mas ele existe: se eu sou o palestrante ou conferencista, eu sei e a plateia deve ouvir em respeitoso e embasbacado silêncio. Isso é sublinhado de modo físico: botam a gente atrás de uma mesa num plano mais alto.
Eu me esforço pra quebrar esse arzinho. Não fico atrás da mesa. Me misturo com a plateia. Falo língua de gente, quer dizer, sem jargões obscuros, pomposos e pretensamente científicos. Rio e faço rir. Quase sempre a coisa funciona: quase sempre a dita palestra se torna uma conversa entre amigos. Isso me parece mais aceitável.
Se algum dia eu der uma palestra ou conferência, por favor, avisem minha família com urgência. Agora, se eu proferir uma palestra, bem, não avisem ninguém. Podem internar direto.
Deu no jornal
“Cresce potencial de consumo de idosos.” Imagino que agora, além de um jazigo perpétuo, compram Viagra e silicone.

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