Relâmpagos, trovoadas, óculos embaçados por causa da umidade. E, de repente, sem luz, e, claro, sem TV a cabo e, pior, internet. Por milagre, o celular continuava, impávido. E tocou. E a ela, que se queixava das mesmas coisas, eu respondi: estamos na caverna.
Eu lembro cenas de infância em que a falta de luz, no verão, levava adultos e crianças para a rua, para a frente das casas, com cadeiras em punho, as velas tremelicando em cima de pires ou enfiadas no gargalo de garrafas de refrigerante. E era uma conversalhada entre vizinhos, risadarias, gritos de falsos sustos. No inverno, claro, havia um maior recolhimento, minha mãe se punha a rezar pedindo a Santa Bárbara-São Jerônimo, que tomassem conta da gente, afastassem o “trovão” e o perigo, e trouxessem, de volta, a tranqüilidade das lâmpadas acesas.
De modo que fico me perguntando como vivemos no risco da escuridão indesejada quando não havia esta coisa fantástica chamada interruptor, que a maioria ainda chama de chave de luz. E muitos, ainda, de pêra, como havia na casa de minha falecida sogra, nos quartos – a facilidade de um fio com a tal pêra na ponta, para desligar a luz quando se estivesse bem aconchegado sob as cobertas.
Nossas cavernas hoje têm tudo, do mais moderno ao alcance do bolso e, claro, do desejo de quem vai usufrurir das benesses da tecnologia. Mas tem um porém: continuamos à mercê da natureza.
Basta um trovão mais furioso, cai tudo. E a gente se vê, ridiculamente, implorando aos céus para encontrar um toco de vela e uma caixinha modesta de fósforo para, ao menos, saber onde pisa. E é bom, também, saber ao menos exclamar: Santa Bárbara!São Jerônimo! Se não se souber de cor nenhuma oração.
