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Cocteau, Gide, Borges: não há nada de novo sob o sol

Tudo já foi dito. Tudo já foi dito mais de uma vez. Algumas, de modo maravilhoso. Também já se disse inumeravelmente que tudo já …

Tudo já foi dito. Tudo já foi dito mais de uma vez. Algumas, de modo maravilhoso. Também já se disse inumeravelmente que tudo já foi dito. Então, como ficamos? Tudo o que vou dizer a seguir, claro, já foi dito antes. Foi dito mais de uma vez até. Algumas, de modo maravilhoso. Espera aí. Não li isso em algum lugar?

Quando o profeta disse que não há nada de novo sob o sol, se lamentava ao mesmo tempo em que fazia uma acusação, atitude nada original num profeta. Parece que nunca houve um profeta alegre. Também, enfiado sozinho num deserto, se alimentando de gafanhotos, era difícil manter o bom humor e o mínimo que acabava acontecendo era o sujeito ver as tentações do Demônio em pleno ar, como anúncios de néon. Mas, enfim, acho que o profeta tinha razão, se descontarmos o azedume. Porque o fato de não haver nada de novo sob o sol nunca impediu que as pessoas descobrissem o mundo e a si mesmas como se fossem as primeiras, com assombro, com delícia, ou com horror conforme o caso.

Segundo Jean Cocteau, esse negócio do tudo-já-foi-dito começou em 1912. Naturalmente não começou como uma grave observação sobre os limites do ser humano, mas como futricas nos meios literário e artístico, forma de pichar o sucesso de certos livros e quadros. Frente a isso, Cocteau disse que detestava a originalidade, que a evitava o mais possível. “Para empregar uma ideia original é preciso tomar grandes precauções para não se ficar com jeito de quem botou roupa nova.”

Perfeito, não? Mas ninguém mais corre esse risco, se não há mais ideias originais. Talvez a precaução a ser tomada agora seja não se agarrar a ideias que foram muito originais na sua época, ideias ou cacoetes tipo suprimir as maiúsculas e a pontuação.

A reação do André Gide foi bem diferente. Ele disse que sim, tudo já foi dito, mas como ninguém ouviu a gente precisa repetir. Gosto do sabor de veneno dessa observação. Mas de tanto citá-la, ou de vê-la citada, comecei a implicar. No fundo talvez ela tenha o mesmo desprezo e ressentimento das vociferações dos profetas bíblicos.

Como disse Jorge Luis Borges, repetindo vá se saber quantos outros autores, as ideias não são muitas e estão por aí, ao alcance de todos. Assim sendo, o que importa não é exatamente a ideia, mas a voz com que ela é dita. O que um escritor, um poeta, tem de fazer é descobrir sua própria voz.

Concordo com isso — meio contrariado, mas concordo. É que concordo com tantas coisas ditas pelo Borges que às vezes isso me parece deselegante, me entende? Mas não tem jeito, um escritor, um poeta, é a sua voz – e o modo como se move, acho que eu acrescentaria. Se não a descobriu, é qualquer coisa, mas não escritor, não poeta. Sem essa voz, se escreve uma notícia, uma cartilha, um ofício. Sem essa voz, há texto, mas não textura. Sem essa voz, não há luz nem trevas, não há sabor nem perfume. Sem essa voz, não há silêncio — o bendito silêncio.

Pouca gente está disposta, imagino, a ler dois tratados de biologia ou química em que as mesmas informações são dadas. Mas em literatura podemos ler dezenas de autores falando das mesmíssimas coisas. Dependendo da voz com que for dada, uma informação nos toca ou não. Daí se vê a importância mortal da voz.

Agora, há vozes parecidas. Membros da mesma família têm vozes parecidas. Veja Rabelais e Henry Miller. Mas mesmo que Trópico de Câncer e Primavera Negra repetissem Rabelais, mais Dostoievski e outros, poderiam ser lidos sem nariz torcido. Pra começo de conversa, não tem como repetir tim-tim por tim-tim. Apesar da semelhança, as vozes nunca são exatamente iguais: há tons, há ritmos diferentes e o ouvido gosta dessas sutilezas. Sem falar que cada voz traz ainda o seu próprio tempo, os tons e os ritmos dele. Por exemplo, para a maioria das pessoas, nos dias de hoje, a música do Miller é mais acessível do que a do Rabelais. Miller tem algo de tóxico que me parece o próprio século 20.

Há ainda a língua e a linguagem, num sentido mais grosseiro. Aristófanes, por exemplo. Há pouco andei lendo As vespas. As ideias da peça são perfeitamente atuais. Mas de quatro em quatro linhas eu precisava ler uma nota de pé de página sobre referências à época — quer dizer, Aristófanes foi mastigado pelas engrenagens da minha razão tentando compreender. No fim, li Aristófanes? Fiquei com a sensação de ter lido sobre Aristófanes. Claro que um grego, lendo no original, seria um pouco mais feliz. Mas não muito, aposto. Boa parte da língua do Aristófanes deve ser grego para os gregos de hoje, como é para nós o português de muitos autores de séculos passados.

Enfim, se o que digo ou repito é correto, a conclusão é um tanto óbvia. As vozes vão emudecendo — umas mais cedo, outras mais tarde, mas vão emudecendo. Chega uma hora que apenas alguns especialistas as ouvem. Como ficamos nós, que não somos especialistas em nada? Precisamos de novas vozes, claro. Quanto mais vozes melhor. Pode ser que assim, em meio a tanta tagarelice, a gente encontre as de que necessitamos — aquelas que como um fogo nos murmuram o mais antigo dos segredos: decifre-se, ou arda.

Autor

Ernani Ssó

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