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Coisa de tarado

Há detalhes que definem um escritor de verdade? Acho que sim. Um deles, pra mim, é a decisão que a Índigo tomou: não vai …

Há detalhes que definem um escritor de verdade? Acho que sim. Um deles, pra mim, é a decisão que a Índigo tomou: não vai escrever por um ano. Por quê? Vejam abaixo:

“Porque no ano passado eu percebi que minha escrita estava perdendo o encanto. Eu estava escrevendo porque os editores me pediam. E eu escrevia. Então chegou um dia em que me dei conta de que estava correndo atrás de histórias para contar. Isso é errado. É coisa de tarado, sair correndo atrás de histórias para depois contá-las. Prefiro muito mais quando as histórias vêm atrás de mim, me acordam no meio da noite, batem na minha janela, entram por debaixo da porta, desesperadas. Elas, sim, devem ser desesperadas. Não eu”.

 

Posições

Não há boas posições para leitura. Mas, dependendo do livro, vale tudo. Agora, a televisão é demais. Exigir que a gente fique de quatro…

 

Coleção de bonés

Numa escola, um menino me perguntou quantos bonés eu tinha na minha coleção. Acho que teve uma decepção ao saber que minha coleção se resume a dois bonés apenas, um deles bem velhinho por sinal, sem falar que nenhum de grife. Pra piorar, o coitado enfrentou a maior gozação dos colegas. Mas eu respondi com toda a seriedade.

É provável que alguém esteja se perguntando por que um escritor gasta o seu tempo e o dinheiro público para falar do seu guarda-roupa. Deve haver mais de uma resposta para essa pergunta, como sempre, mas a minha preferida é a seguinte: esse menino mora numa vila e nunca tinha visto um escritor de perto, daí ser natural querer comprovar a humanidade do dito cujo e tentar estabelecer uma ponte direta consigo mesmo. Agora, cá entre nós, você não tem curiosidades desse tipo com, digamos, Machado, Cortázar, Kafka? Você não diz para não passar por bobo, mas, confesse, lê avidamente as biografias, pra não falarmos das fofocas.

Apenas o nome impresso na capa de um livro detona uma série de fantasias nas crianças. Se você publicou um livro, você é famoso, você é rico, você é estrangeiro, ou mais ainda, você é um estrangeiro morto há séculos. Isso tudo quando o autor não é uma abstração mais remota, como se contos e romances crescessem como capim, sem que ninguém tenha plantado. Agora, se o autor se faz presente não apenas através dos livros, mas em carne e osso, acontece um pequeno milagre, a quebra de uma fronteira, a descoberta de que a literatura é um jogo de que todos nós podemos participar, com ou sem boné.

 

Fantasia

Uma menina, numa escola municipal de Porto Alegre, achava que os escritores vinham de muito longe, se é que não vinham do espaço. Cheia de esperança, me perguntou de onde eu tinha vindo. Eu disse que do Menino Deus, bairro em que morava na época. Aí ela perguntou: “Você veio de avião?” É comovedor, ela lutou contra as evidências até o fim.

Mas vi a melhor fantasia de criança com escritores e livros no ensaio “O imaginário no poder — as crianças e a literatura fantástica”, da Jacqueline Held, psicóloga, pesquisadora e autora de histórias infantis. Um menino — francês, note-se, quer dizer, um pouco mais informado que essa menina de uma vila porto-alegrense — achava que os livros eram feitos numa espécie de fábrica, um salão imenso, dividido em centenas de cubículos para que cada escritor ficasse isolado. Não sei se os escritores tinham todos a mesma aparência, mas faziam o mesmo livro, volume por volume, tanto o texto como as ilustrações.

 

Fim do mundo

2012? Não, não. O mundo acaba todo dia pra um monte de gente.

Autor

Ernani Ssó

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