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Como faço o que faço e talvez inclusive o porquê

Como não ganhei um centavo na vida que não fosse escrevendo – ou editando, ou similares –, talvez possua uma visão distorcida do que …

Como não ganhei um centavo na vida que não fosse escrevendo – ou editando, ou similares –, talvez possua uma visão distorcida do que é ganhar a vida. Como diz um amigo, não importa que você escreva até as quatro ou cinco da manhã, passe incontáveis dias sem dormir pensando num projeto, estenda as noites ao limite durante o fechamento de uma publicação ou desconheça fins de semana. Se alguém ligar às nove da manhã e você estiver dormindo, o que você é? Vagabundo!

Há muitos anos, durante uma contenda com um chefe, sugeri que ele escolhesse: ou teria um líder, competente e criativo, ou alguém totalmente submisso, disposto a interpretar ao pé-da-letra o papel de subordinado, mas incapaz de ter idéias, e menos ainda de executá-las. Seria difícil encontrar ambas as características na mesma pessoa. Talvez eu não fosse um exemplo bem acabado do primeiro perfil, mas com certeza não me enquadrava no segundo.

É moderno não beber, não fumar, acordar cedo e aceitar tudo para não parecer indisposto ao trabalho em equipe, como é moderno escolher candidatos a emprego pelo domínio da informática e do inglês – português em jornalismo, como sabemos, é secundário. E aí as empresas entopem-se de pessoas medianas, das quais, é claro, só se pode esperar resultados medianos. Mas, ora bolas, elas chegam cedo, são saudáveis e acatam ordens sem discussão. Quem acha que isto não serve deve ser enquadrado como? Vagabundo!

Escrever é um ato solitário, dolorido, sofrido, proclamam certos best-sellers. Bobagem. É fácil, gostoso, natural, ou que se vá vender seguros. O problema é que a rotina de um jornalista moderno reserva pouco tempo à atividade principal. Se a vida fosse apenas escrever, estaríamos no paraíso.

Sei como faço o que faço. É tudo muito simples: precisa-se ter uma profissão na vida, e o mais adequado é que ela tenha a ver com o que – supostamente – se faz melhor. Um ganha-pão, nada mais. O glamour é imaginado por nossas mães, quem sabe por um punhado de leitores. Por que faço o que faço? Sinceramente não sei. A vida seria mais simples, tranqüila, aprazível e rentável em outros cenários.

Criativos, se é que se pode qualificar assim, são mão-de-obra. Empreendedores enriquecem. São necessários temperamentos, visões de vida e atitudes diferentes. Nem sempre tais perfis são compatíveis. Enriquecer nada tem a ver com talento. Tem a ver com outro tipo de, digamos, conduta. Mas não adianta, passam das três da manhã e continuo escrevendo, apenas na hipótese de alguém querer ler no dia seguinte.

* O título deste artigo foi copiado de um livro de Gore Vidal

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* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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