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Como fazer inimigos em Curitiba

Cristóvão Tezza mora pertinho do Dalton Trevisan. É dureza, meu nego, não ser o melhor escritor nem em nosso bairro. O filho eterno Não …

Cristóvão Tezza mora pertinho do Dalton Trevisan. É dureza, meu nego, não ser o melhor escritor nem em nosso bairro.

O filho eterno

Não consegui ler. Se posso copidescar, com pouco esforço, reduzindo o livro a um terço mais ou menos, não consigo ler. Tanto faz se é bom ou não. Imagino o que faria o Trevisan com esse material. Talvez uns dois contos de três páginas, talvez uma meia dúzia de mini-histórias. Uma coisa é certa. Trevisan não buscaria a peninha do leitor.

Vida complicada

Nunca usei bigodinho, nem tive dente de ouro. Nunca comi broinha de fubá mimoso. Nunca chupei bala Zequinha. É o diabo, nunca namorei uma polaquinha.

Mas ouvi e ouço muito a corruíra no jardim. Nem tudo é danação.

Badalação

Não entendo a badalação em torno do Leminski. Quer dizer, entendo, sim, mas acho uma chatice. Dalton Trevisan e Jamil Snege botam Leminski no chinelo. O Leminski e a horda dos imitadores do Leminski juntos.

Poeta

O Paraná tem um poeta: Dalton Trevisan. Preste atenção nas frases do Trevisan. Preste atenção nas cenas do Trevisan. Está na cara que ele não pensa como prosador. Quem dera muito poeta fosse tão fundo e com tanta precisão com tão pouco.

Mal comparando

Não gosto de comparar escritores. Literatura não é simples como turfe, que se resolve com um cavalo chegando com um focinho na frente. Só dá pra comparar dois escritores quando um deles é um pangaré a caminho da fábrica de sabão.

Leminski: “a palmeira estremece/ palmas pra ela/ que ela merece” ou “Inverno/ É tudo o que sinto/ Viver/ É sucinto”.

Trechinho do dia a dia de um viúvo em Desgracida, do Dalton Trevisan: “De volta à Pensão Bom Pastor com um jornal, às vezes uma revista. Um pouco de jornal, daí o rádio, logo me chateio. Mais jornal, suspiro, os pequenos anúncios, gemido. No fim começo a falar sozinho. Sabe que faz bem?”.

Preciso entrar em detalhes? Leminski só brinca com o som das palavras. Pra que fazer sentido? Parece que faz slogans publicitários, frases bonitinhas pra tapear o vazio. Trevisan lida com coisa real, uma pessoa, a solidão dela, a briga pra sobreviver. Apenas isso é uma vantagem incomparável. Mas o modo como ele lida, puta que pariu. Recorta com tesourinha uns cacos de realidade e os cola numa ordem e com uma precisão perfeitas, quero dizer, de um modo que o efeito é cem vezes mais poderoso do que um acúmulo de cenas ou descrição de três páginas de lágrimas.

O sucesso do Leminski e os poucos leitores do Trevisan pra mim são um acinte.

Antiliterário

Li em algum lugar que o estilo do Trevisan é antiliterário. Não entendi no primeiro segundo. Tive de lembrar que o pessoal acha Iracema, do José de Alencar, literatura.

Estalo

Lendo e relendo Dalton Trevisan, penso que estou no caminho certo. Nunca vou chegar a lugar nenhum. Mas estou no caminho certo.

Autor

Ernani Ssó

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