Li numa sentada o livro do James Wood, desprezado pela Flora Sussekind numa resenha em “O Globo”. Wood escreve com total clareza e com graça, ainda por cima, exatamente o contrário da Flora, mais uma acadêmica cheia de empáfia e obscuridade.
Problema bibliográfico
Desconfio de que algo não bate bem quando um professor de literatura dá aos alunos uma lista de leitura em que, para cada livro de ficção, há dez de teoria sobre esse livro de ficção. Fico mais aflito ainda ao pensar que alguns desses alunos sentirão o desejo de aumentar a lista dos livros de teoria com suas próprias produções.
Arizona
No Arizona, qualquer um, mesmo comprovadamente maluco, pode comprar qualquer arma e andar com ela na cintura em todos os lugares, menos nas salas de aula das universidades. Os lobistas das fábricas de armas estão em campanha para que os alunos possam sanar esse grave defeito em sua educação. Seria ótimo, assim muitas das cenas de pugilato no recreio teriam a possibilidade de se tornar duelos, com muita bala perdida e o consequente lucro das funerárias, dos médicos e da indústria farmacêutica. O mercado sempre precisa de aquecimento e a liberdade das pessoas de se matarem umas às outras deve ser preservada acima de tudo.
Controle populacional
Acho que há gente demais. Daí sou favorável ao controle populacional, mas por meios práticos. Acidentes de trânsito, bala perdida, guerras, saúde pública paupérrima e fome me parecem muito estressantes, sem falar que são apenas paliativos.
William Zinsser
Esse camarada dá aula em Columbia pra futuros jornalistas, muitos deles estrangeiros sem intimidade com o inglês. Aí o Zinsser tenta mostrar como não passar vergonha escrevendo na sua língua. Ele culpa a empolação e falta de concisão de muitos americanos por usarem principalmente palavras derivadas do latim, não do anglo-saxão. Ele diz que o que é considerado bonito em espanhol ou italiano (e poderíamos incluir o português aí) é horroroso em inglês. Falar e escrever bem em inglês é portanto preferir as palavras curtas e secas anglo-saxãs. Um dos exemplos dele: na tevê norte-americana não chove mais: vive-se uma probabilidade de precipitação pluviométrica. Eu, hein, Rosa! Alguém precisa dizer ao professor Zinsser que uma probabilidade de precipitação pluviométrica é ridícula em qualquer língua. O amor dele pelo inglês ou a sua arrogância faz pensar que a má escrita de alguns é o padrão de excelência estrangeiro e que a má escrita inglesa é culpa apenas dos imitadores dos estrangeiros. Ora, professor, já que você gosta de falar com clareza: vá tomar naquele lugar.
Ainda Zinsser
“Eu tenho quatro princípios da boa escrita em inglês. Eles são clareza, simplicidade, brevidade e humanidade.” Gozado, é o que eu tento no meu pobre português, eu e uma infinidade de escritores e jornalistas. O professor mede todos os estrangeiros por uma dúzia de estudantes estúpidos. Seria bom ele lembrar também que um dos “clássicos” americanos, incensado pela crítica, desde a jornalística até a acadêmica, se chama Cormac McCarthy, que em “Meridiano de sangue”, por exemplo, contraria todos os quatro princípios do professor Zinsser, sem falar no senso de ridículo.
Deu no Correio do povo
É bom pra saúde dormir a “cesta”. Olhaí, jornalista diplomado: não adianta ter corretor no computador. Aprenda um pouco de português e ligue o desconfiômetro.

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