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Como tem de ser

Está tudo bem. Aquele pé de mimos-de-Vênus chorão que está plantado no pátio dos fundos do edifício ao lado está cheio de flor vermelha, …

Está tudo bem. Aquele pé de mimos-de-Vênus chorão que está plantado no pátio dos fundos do edifício ao lado está cheio de flor vermelha, que bate na minha janela do escritório. Pena que o gato malhado de branco e amarelo sumiu, era meu interlocutor de todas as manhãs, após as conversas com os cachorros e com minha filha.

Apesar do consumo turbinado no entorno, meu canto é sereno, silencioso, em especial quando não tem Grêmio ou Inter jogando, porque aí, não tem jeito: é foguete e gritaria mesmo. Mas, é Natal, e parece que todos estão concentrados para enfrentar o ritual, discretamente.

Tudo muito diferente do que vivenciei, contrariada, na ida ao shopping, na noite de quarta-feira. Obviamente, loucura. Como bateu certa tontura dentro de uma loja, deixei a filha experimentando as roupas a que toda jovem bonita, bom caráter e bem-sucedida tem direito e desabei num dos bancos duros de madeira que deixam no corredor. Foi uma experiência que nem Tim Burton conseguiria transpor para seus filmes.

Do meu mirante, aquele banco semelhante aos dos que os motorneiros iam virando em direção ao destino dos bondes da minha infância, divisei o que posso classificar como uma turba digna de um umbral ou, como querem os católicos, limbo. Impressionante.

Jovens mães com salto 15, parecendo travestis, maquiladas ao absurdo, calças boca zero, empurrando carrinhos com filhos chorando de fome, cansaço e pavor. Homens, em especial os mais velhos, com boca apertada de contrariedade, empunhando sacolas como quem vai já já sacar uma arma, encontrando com as respectivas excitadas e preocupadas em comprar, comprar, comprar, comprar e comprar.

Conversas vazias, abraços entre quem entrava e saía de lugares apinhados de indecisos consumindo coisas sem importância, presentes escolhidos na obrigação. Sorrisos poucos, em sua quase totalidade, olhos vazios.

Cheguei a achar pior o refúgio no banco, quase retornei ao interior da loja, porque a visão de fora foi bem pior.

Gosto de presentes, gosto de presentear, gosto de ter dinheiro e de consumir. Natal tem significado extraordinário pra mim, não só da infância na vila do IAPI, em que nunca fiquei na mão porque o Papai Noel de seo Waldemar e dona Luci se empenhavam para me atender, mas também nos primeiros tempos de maternagem, em que vemos a festa pelos olhos dos filhos. Mas este Natal só da grana e do dever moral de estar na comemoração me aborrece e deixa triste.

Faz pouco, eu estava no balcão da churrascaria próxima de casa, esperando uns pedaços de galeto para o almoço quando vi o dono conversar com um cliente de seus trinta e poucos anos e lhe perguntar se ele iria trabalhar na véspera do Natal. A resposta foi: “não, já trabalhei demais este ano. Agora é só comer e beber muito. Vou encher a cara de cerveja até o Ano Novo”. Ao que o churrasqueiro, a bordo de seu avental salpicado de sal e gordura, comentou que sabia bem o que era isso de beber, que já tinha sido “assim”. Depois, me explicou: “eles acham que a vida é só isso. Eu comecei a beber aos 13 anos, caipirinha, uísque, cerveja, e bebi durante 37 anos. Agora, faz 3 anos que parei de beber”.

Saí da churrascaria menos chateada com a superficialidade do Natal que se abate sobre nós, ancorado na riqueza de fachada de uma terra que continua de olhos vendados para a verdade. Pensei em meus velhos, em meus filhos, meus amigos (incluindo Occhi e Dodô, extraordinários vira-latas), parentes estimados, enfim nos afetos que a vida nos dá. Fiquei feliz, dentro do possível, com o Natal e com o 2011 que chega. Tudo está bem, portanto.

Felicidades a todos.

Autor

Maristela Bairros

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