Esgueirava-me por entre as mesas, cadeiras e divisórias da espremida redação da Vogue. Acabara de deixar a sala de Andrea Carta num dia algo difícil, parei por um breve instante para falar com Ignácio de Loyola Brandão e me dirigia à mesa do fundo para um despacho com Camila Hori, a editora de arte, quando topei com duas mulheres que conversavam no meio do corredor de meio metro de largura. Tentei dribá-las por um lado e por outro, mas acabei esbarrando na borda de uma mesa. Ao perceber o incidente, uma das mulheres, Constanza Pascolato, virou-se para mim e disse: “É, meu amigo, ou você perde uns quilinhos ou eu aprendo a ter educação e não ficar no caminho das pessoas”. A frase soou simpática, a voz doce e o perfume maravilhoso que ela usava naquele dia ajudaram. Ambos rimos. Eu estava, de fato, muito acima do peso ideal, tudo bem, ainda estou, juro que me recupero e etc, mas eu nunca havia visto alguém chamar uma pessoa de gordo com tanta elegância e charme.
Recordo este episódio quando assisto a cenas de deselegância desnecessária no dia-a-dia. Vizinhos incapazes de responder a um bom dia, funcionários que chegam ao local de trabalho chutando as cadeiras, atendentes de telemarketing desprovidos de senso de humor, afinal, não está no manual, e por aí afora. Perde-se a piada, e nada se ganha. Redações, por sinal, são um bom exemplo da perda de humor que assola o país, e qualquer país pode se dar a este luxo, mas não o Brasil, reconhecido como um lugar de gente bem humorada, título acerca do qual tenho sérias dúvidas.
As redações antigas eram por vezes pouco profissionais, e isto não era bom por milhares de razões que jornalistas sérios e éticos conhecem muito bem. Mas houve um tempo intermediário no qual o bom humor convivia com o profissionalismo. Cada vez mais, seriedade é confundida com sizudez, com mau humor, com falta de presença de espírito. Trata-se de mero exemplo, o mundo todo está mais chato. Como disse uma vez o Verissimo, o que antes dava piada, hoje dá processo. E do mau humor à deselegância, à grossura, é um passo. Gentileza pode ser confundida com leniência. Quem se arrisca?
Voltando às redações, quando entro em alguma do Baixo Mampituba depois de muito tempo ausente, costumo ouvir a gentil frase “nossa, como tu tás gordo!”. Claro, quem pode exigir Constanzas a cada corredor? A propósito, tenho uma tese de que o sotaque determina o comportamento, o tom, o que significa que gaúcho só é gentil quando se esforça. O tu pede uma certa agressividade. Ao menos podiam caprichar no português. Mas isto é papo para outro dia.
Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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