Era 1998, por aí. Eu estava, mais uma vez, trabalhando na redação do Correio do Povo, mais uma vez na editoria de variedades. Paulo Acosta estava lá, na editoria de geral, com sua risada peculiar, a mania de fazer uma piada por minuto, ouvindo rádio alto para não perder nenhuma pauta. Um dia, reclamei alto do som do rádio. Ele comentou que era melhor ser bancária. Fiquei furiosa. Achei que ele também estava. Mas, que nada: deu risada, não levou a sério nem minha reclamção, nem a resposta dele mesmo.
Esse era o Acosta, um sujeito calmo, pacífico, que, como tantos jornalistas, trabalhava em dois empregos para garantir sua sobrevivência. Logo depois do meu ranço, ele me convidou para escrever para seu site, Osaiti.
Fui a primeira articulista do espaço, e, de imediato, apelidada por ele de “a tia do saiti”. Acosta foi um dos pioneiros a acreditar na internet, no poder do espaço virtual. Com sua generosidade e capacidade de agregar, reuniu gente de todas as vertentes para ali expor seus textos, seus pontos de vista. Em 17 de agosto de 2005, Acosta nos abandonou, atraiçoado por suas próprias esperanças de vencer uma doença absurda que o mantinha preso a experiênicas médicas no leito do Hospital de Clínicas. Ele e seu computador, que o plugava no mundo e através do qual nos contava detalhes do tratamento e de sua recuperação.
Lembro de tudo isso porque, além de me tornar uma cronista online, Acosta ainda criou minha primeira conta de blog, com meu próprio nome, atitude que eu, na época, não soube reconhecer. Tanto que lhe enviava minhas crônicas por mail, por puro comodismo e ele, disciplinadamente, colocava no blog. Login e senha de acesso se foram.
Em 2006, me encorajei a criar meu blog, batizado com o nome da minha já extinta microempresa de assessoria. Custei a engrenar, passava semanas sem postar. Até que, desempregada desde o primeiro dia do ano da era Yeda Crusius de governo, passei a me dedicar a meu espaço. Livre, leve e solta, comecei a fazer da blogagem diária um dever. E a buscar estilo, modos de falar com um público que foi crescendo, devagarinho, e, se hoje não é numeroso, é fiel. O Clínica da Palavra, que já teve muitas faces, se multiplicou. Deu origem ao Diário da Dodô, para cachorreiros e afins, e ao Hilarius1968, que nasceu ridiculous1968, mas, atendendo a pedidos de amigos e crítico, mudou de nome, já que busca pegar o lado menos “revoltado” deste ano simbólico para o mundo ocidental.
Só que blogar, hoje, já está passando do nível de diversão. Há tantos blogs, mundo afora, que a coisa virou séria, cheia de teorias. E leio, no blog do especialista em web2.0 Francis Pisani, sua oitava postagem sobre a blogaláxia, sobre Nicolas Vanbremeersch, alias Versac, um blogueiro francês que fechou, faz pouco, sua página virtual que já completava cinco anos. Um dos motivos para o fechamento do blog está no surgimento do que Versac chama de o blogueurinfluent, que ele classifica de uma espécie de monstro.
“Uma das minhas chaves de análise é que dois mundos se encontram atualmente, não são realmente conhecidos e que têm suas lógicas invertidas. Aquele das mídias e de sua economia (raridade, monopólio, relação individual) e aquele das mídias sociais, com sua visão plana, uma rede onde inexiste qualquer monopólio da expressão”, comenta Versac. Só este comentário já deve ser motivo para reflexão por quem hoje, querendo ou não, está mergulhado no mundo da webinformação.
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