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Coopítulo 8 – Dos jornalistas cooperativados

A hora do Coojornal nestas linhas ainda vai chegar, mas é relevante ressaltar antes a estrutura que lhe deu suporte e sem a qual não haveria jornal nem jornalistas tão ativos. Assim, considero exemplar a assembleia geral realizada em abril de 1976, quando os 49 associados presentes deliberaram sobre os próximos passos e decidiram, conforme foi proposto pela direção da cooperativa, primeiro fortalecer a base da entidade para só depois editar seu jornal – que, na época, se pensava e desejava que poderia ser semanário. 

Enquanto presidente, discursei relembrando que a Coojornal fora criada quase dois anos antes “com o objetivo determinado de ampliar o estreito mercado de trabalho na imprensa da Grande Porto Alegre”. Queríamos também ter nosso jornal, mas ali, naquele momento, estávamos conscientes de que o seu lançamento só poderia acontecer “em cima de uma estrutura sólida que nos permita absorver os prejuízos que qualquer publicação, inevitavelmente, sofre em seus primeiros meses de circulação”. 

Naquele momento, a cooperativa tinha 25 profissionais como contratados fixos e outros 30 colaboradores eventuais. Ali a entidade registrava um crescimento de 300% no curto período de seis meses – isto é, de outubro de 1975, quando também realizara uma assembleia, àquele abril de 76. Se no ano anterior a cooperativa produzia quatro publicações que somavam no conjunto 31 mil exemplares, agora respondia por 13 publicações, num total de 110 mil exemplares mensais. 

Estes feitos eram devidamente registrados pelo boletim Coojornal. “Nova linguagem para o campo” era o título de uma robusta matéria publicada nele em junho de 1976, que destacava o trabalho desenvolvido por parte da equipe para a edição de uma publicação que, como muitas outras, marcou época. Copio o registro: “Para facilitar a aproximação com os agricultores, o repórter André Pereira cortou o cabelo que lhe caia pelos ombros. O editor Osmar Trindade dedica-se a analisar o vocabulário do homem do interior na busca da linguagem mais adequada para falar clara e corretamente aos seus leitores. E Airton Kanitz, o editor executivo, preocupa-se tanto com as técnicas agrícolas quanto com os hábitos das comunidades ruais. Os três fazem parte da equipe da Coojornal que edita a revista Agricultura & Cooperativismo e estão empenhados num desafio: fazer uma revista que seja facilmente entendida pelo agricultor e que leve a ele não apenas informações sobre agricultura, mas reflita e o informe sobre o meio em que ele vive”.

A revista mensal estava então em seu terceiro número e muito de sua realização só fora possível graças à participação decisiva e entusiasmada do saudoso Luiz Francisco Terra Júnior, o Terrinha, que dirigia a comunicação da Fecotrigo, para a qual era editada a revista. Terrinha era exigente como poucos, mas sabia identificar e reconhecer um trabalho bem realizado. Tanto que não hesitou em entregar também à cooperativa a produção do boletim técnico Trigo & Soja e um Anuário do Cooperativismo. 

Em certo momento fizemos uma chamada de capital para a cooperativa alçar voo mais alto. Dos então 212 cooperativados, 152 atenderam à convocação e subscreveram planos de compra de novas quotas-partes, assegurando um recurso que levou à compra de um equipamento de fotocomposição e fotolitagem no valor de 550 mil cruzeiros (cerca de 710 salários mínimos). Realizava-se ali um de nossos novos sonhos: ter controle total sobre o processo de produção de nosso trabalho. Faltava apenas uma impressora, que por pouco não foi adquirida…

Então, em setembro de 1976, a cooperativa estava pronta para dar o salto. Com 17 publicações, entre jornais, revistas e boletins para empresas e entidades, somava então 270 cooperativados, dos quais pelo menos 30 trabalhavam diariamente nela enquanto outros 50 atuavam como free-lancers. Por esta capacidade de oferecer postos de trabalho reais o setor de publicações para terceiros era incentivado. Além do mais, era uma demonstração concreta de que a cooperativa podia prestar este tipo de trabalho com um alto nível de qualidade.

O boletim Coojornal seguia ampliando leitores e admiração. Sua receita editorial incluía, como lembrei antes, acompanhar o que se passava nas redações inclusive de São Paulo e Rio, na universidade, nas empresas e no mercado, aí presentes também publicidade e propaganda. O tabloide registrou, como nenhum outro veículo ousaria fazer, as movimentações nesta área e especialmente a cisão que se estabeleceu quando o Supermercado Real decidiu criar sua própria agência, a Ampla, levando para dirigi-la ninguém menos que o presidente da Associação Riograndense de Propaganda, o inesquecível Jesus Iglesias. Deixar a MPM para ter sua agência foi visto pelo mercado como uma forma nociva de fazer propaganda – o que explica que o exemplo da Ampla não teve muitos seguidores. A MPM, aliás, como a Escala, era outra boa parceira da Cooperativa dos Jornalistas, comparecendo no boletim Coojornal com anúncios como os da Samrig e do Grupo Gerdau. Sentíamo-nos então maduros para, enfim, lançar o sonhado jornal nas bancas.

***

Estou impressionado, e me sentindo muito recompensado e realmente feliz, com a repercussão desta coluna no Coletiva.net. Mexeu com as memórias e vivências de muita gente que de alguma forma pulsou lá pelo Coojornal e pela Coojornal e seus quase incontáveis jornais, revistas e boletins que produziu. Orgulho-me de ter a coleção completa do Coojornal, infelizmente com uma notável exceção: faltam-me os números 2 e 8, ambos, portanto, desta fase de boletim. Se algum leitor ou leitora compreensivo puder me ajudar – mesmo que seja com uma cópia no bom e confiável xerox –, agradeço penhorado.

A sétima edição do então boletim, com destaque para a foto do J. B. Scalco

Autor

ond@web

Repórter especial

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