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Cresce a terceirização na mídia. Isso preocupa?

Nos últimos tempos, tenho observado uma mudança no formato do relacionamento profissional entre as grandes empresas de comunicação e as fontes de conteúdo ou …

Nos últimos tempos, tenho observado uma mudança no formato do relacionamento profissional entre as grandes empresas de comunicação e as fontes de conteúdo ou trabalhadores em comunicação, para usar um termo mais atualizado. Não vou me estender na análise de muitos veículos porque seria desgastante. Vou me fixar em exemplos de atuação de dois grande jornais, a cinquentona Zero Hora e o jovem O Sul, ambos de Porto Alegre, dois veículos nos quais tiver  prazer de trabalhar.

Muitos colegas criticavam o Otávio Gadret por aproveitar em O Sul boas matérias produzidas pelas agências O Estado, Folha, Globo e JB. Ele tinha esse direito, porque pagava a assinatura dos serviços, mas não podia publicar antes de sair nos jornais das redes as quais pertenciam às agências. Mas como nem Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, ou mesmo alguns dos grandes do Interior publicavam, O Sul tinha essa vantagem: oferecia aos seus leitores – que raramente, um ou outro, tinha acesso aos jornais do Rio e São Paulo – boas reportagens, que eram reescritas para não ficarem ipis literis (exatamente iguais às originais). Isso lá por 2002, 2003.

O Gadret também era prático e não gostava de gastar dinheiro com táxi em corridas longas ou ter repórteres setoristas em órgãos públicos como Assembleia Legislativa, Câmara Municipal, Prefeitura e Governo do Estado. Ele justificava dizendo que na maioria das vezes era perda de tempo, que o repórter e o fotógrafo passavam horas no local e ao final de uma reunião não havia novidades das fontes. Ou seja, tempo perdido. Sabemos que essa avaliação é relativa e superficial do ponto de vista jornalístico, pois uma notícia, uma cobertura não se limita a alguma informação de secretários ou técnicos, mas da percepção e avaliação de todo um contexto, da descoberta de fatos nem tão visíveis. Mas na avaliação do Gadret, que era é pragmático, a avaliação era do custo-benefício e o repórter voltava sem a manchete.

E foi o Gadret – antes do Sartori – a usar uma comparação com a Tumelero. Referindo-se ao trabalho e os gastos para ter informações para uma reportagem com cobertura presencial e o uso das informações e fotos que as assessorias de imprensa dos órgãos públicos oferecem. Dizia ele: “Porque é que eu vou me desgastar e ir até a floresta para derrubar uma árvore se posso ir ali no Tumelero e comprar a tábua pronta!”. Toing? Pois o que observo atualmente é que o Gadret estava dez anos à frente neste estilo de gestão, mas assim como outros empresários hoje, anos atrás em termos jornalísticos. Hoje se faz muito jornalismo que eu chamo “in box”, ou seja, dentro da redação. Uma pena, pois o verdadeiro jornalista tem que colocar seu faro à prova, tem que conhecer a secretária da fonte, os amigos da fonte e até o porteiro do prédio – que sempre sabe de alguma coisa.

Lamentavelmente, o jornalismo de verdade sofre no confronto com as noções da nova gestão que estão sendo implantada de reduzir custos. Logo, não será preciso nem jornalista, basta assinar algumas agências e ter um “separador de matérias”.

Trato desse assunto porque um caderno que sempre admirei em Zero Hora, passa por mudanças estruturais significativas. O Gastrô está sob “nova direção”. Não que tenha ficado pior, ao contrário, acho que está bem interessante, mas, de forma silenciosa e pouco comentada, sua equipe mudou: não é mais de ZH, mas dos ótimos integrantes do blog Destemperados. Restou ali a minha colega de faculdade, a ótima Bete Duarte, que foi editora por muitos anos e agora tem um espaço restrito, tipo seção “Na Cozinha da Bete” e um pitaco do excelente Antônio Pinheiro Machado. O caderno está bem comercializado, bonito e diferente.

Não consegui saber qual a relação contratual entre ZH e o pessoal dos Destemperados, mas é uma prestação de serviços, ou terceirização, como preferem alguns. Não sei quantos eram os integrantes fixos do Gastrô, mas certamente alguns foram demitidos naquela leva de agosto. Mas deixo aqui uma pergunta: isso é bom ou ruim para o mercado? Não me atrevo a avaliar se bom ou ruim para o jornalismo porque o pessoal que assumiu é competente.

Do ponto de vista das relações de trabalho tradicionais, os conservadores dirão que é ruim, pois o jornal, no caso, Zero Hora, cortou vagas, assim como cortou extinguindo os jornais de bairro. No entanto, fazendo outro tipo de leitura, pode-se dizer que é positivo para o mercado porque abre espaço também para as chamadas “Agências de Conteúdo”, que trabalham sob encomenda ou oferecem produtos alternativos/exclusivos. Este segmento está crescendo bastante e aproveitando bons profissionais. Por este aspecto, as mudanças merecem aplausos, mas causa apreensão o perfil jornalístico, a independência da abordagem.

De qualquer forma, é um assunto para se pensar com calma e avaliar com isenção. Afinal, cada um sabe onde o sapato aperta. A propósito da coluna, fiquei contente ao ver o tema que o competente Moisés Mendes abordou na coluna do Sant”Ana (???) nesta terça-feira (04/11): a dificuldades que os jornalistas têm hoje de conseguir entrevistar uma pessoa famosa, seja artista, jogador de futebol, político, diante da “blindagem” que existe pela equipe de assessores. Tive o privilégio de escrever sobre este tema em uma das primeiras colunas aqui no espaço do Coletiva e quando o grande Moisés aborda o mesmo tema em um veículo como ZH, só posso me sentir satisfeito. Obrigado Moisés.

Autor

Julio Sortica

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