Desde ontem estou remoendo uma das notícias que, a cada vez que é repetida, deixa meu nariz de palhaço maior: a de que as mulheres continuam ganhando 20 por cento menos que os homens. Com a ressalva de que – ó, maravilha – estão recebendo 3 por cento mais do que um ano antes! Comemoremos, irmãs: em 2005, a gente ganhava 30 por cento menos do que nossos companheiros de jornada. Portanto, a geração da sua neta, possivelmente, vai estar fazendo as unhas e tomando um banho de espuma em comemoração a ter encostado seu salário no do namoradão.
Lá em Portugal, nosso avozinho, explica uma socióloga porque os homens sempre tiveram e têm mais regalias profissionais: “Têm músculos mais fortes e, infelizmente, a força bruta ainda domina”. Pô, colega: nem as horas de musculação que a gente faz lavando roupa, esfregando panela, passando aspirador, puxando os filhos pro colégio, levantando a tolha molhada do excelentíssimo do chão, isso não serve pro patrão dar uma forcinha? Não, não vale.
Nem a pobre coitada que anda pelas ruas coberta dos pés à cabeça em nome de usos e costumes que servem apenas para mantê-la submissa a homens cretinos (que ousam dizer que assim as protegem), nem esta consegue a tal da equiparação. Peso por peso… nada! Nem em salário, quando trabalham fora de casa, nem na lida doméstica, limpando as solas dos sapatos daquele que divide com ela aquele espaço em que tudo se revela: a cama.
Sempre tive nojo explícito do papo feminista que buscava confrontar macho e fêmea, quando não excluir o gênero masculino da história. E vi muita, mas muita fã de camiseta estampada de Betty Friedan e da carapinha de Ângela Davis trocar, correndo, o estandarte da passeata por uma linda aliança de brilhantes, casa na praia e crianças em escola particular.
Se as critico por isso? Não! Au contraire: espertas, estas garotas! Tivessem optado por estudar e trabalhar, sem tempo para as frescuras de passar um creminho no pé ou retocar a raiz do cabelo, estariam estas próceres do WomenLib só frustradas e iradas com elas mesmas, ao descobrir que ombrearam com os homens para carregar o piano mas o salário veio, sempre, com perna curta.
De modo que, cumadres, com a proximidade de mais um Dia da Mulher, com todas aquelas bobageiras de costume, institucionais ou não, com homem chegando em casa com um buquê de rosa vencida comprada no semáforo, vamos parar para pensar. Original, este convite, não? Pouco se me dá: você que tem filha, neta, sobrinha, agregada, cheia de ilusão com um diploma, carreira no exterior, foto na Caras, essas coisas, faça o seguinte: chame pruma conversinha de pé de ouvido. Dê a real. Mostre aquele raio-x da sua coluna toda baleada por tanto salto alto e horas em cadeira vagabunda, fins de semana e natais inclusive, para “terminar aquele relatório” e fazer jus ao bônus da empresa. Exiba as rugas, aquelas de meio da testa, que nem botox dá jeito, e que a franja esconde. E, para completar, escancare aquele papelzinho que diz o quanto você ganha e o que o parceiro ganha.
Se, depois de tudo isso, ela ainda quiser comemorar o 8 de março, tudo bem. Um dia, ela aprende. Você fez a sua parte.
