Enquanto Cuba se rende às maravilhas do mundo do consumo e libera a venda de coisas extraordinárias como computadores e aparelhos de DVD (é para rir ou chorar?), o radicalismo religioso continua implacável com quem ousa desafiá-lo e condena à morte por qualquer ação considerada ofensiva. Perwiz Kambakshs é um estudante e jornalista de 23 anos que foi condenado à morte por um tribunal de Mazar-e-Charif, no norte afegão. Seu crime? Ter atentado contra o Corão ao haver supostamente baixado da internet – e distribuído – um documento escrito por intelectual iraniano exilado que considerava as prescrições do Corão para as mulheres contrárias à Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Sem esperança na lei afegã e fundamentalista, a família de Perwiz conta com a mobilização internacional que poderá, quem sabe, livrá-lo da execução por blasfêmia.
O irmão do jornalista anda percorrendo países europeus em busca de apoio. O Parlamento europeu, na última quinta, exortou as autoridades de Kabul a conceder o perdão a Perwiz. Yacub Ibrahimi, o irmão que tenta reverter a condenação, em coletiva na sede do Reporters sans Frontières, denunciou que a justiça afegã manipulou o processo que se desenrolou a portas fechadas e sem ao menos um advogado representando o réu.
Ibrahimi, também jornalista e colaborador de midias estrangeiras, negou que o irmão tenha mesmo baixado o artigo incriminador e credita a acusação a uma manobra para atingir suas atividades profissionais. “Meus artigos causaram denúncias pelos chefes de facções armadas que eu havia criticado. Como eles não podem me atacar diretamente, em razão de minhas relações com a imprensa internacional, se voltaram contra minha família. Os senhores da guerra e os fundamentalistas comungam do mesmo ódio à liberdade de expressão”, declarou.
Por enquanto, a movimentação da família resultou na transferência do processo de Mazar-e-Charif para Kabul, onde aparentemente as pressões políticas não são tão fortes. A organização Reporters Sans Frontières afirma que obteve, do presidente Hamid Karzaï, promessa de que ele não assinará a ordem de execução de Perwiz.
E, como comecei falando em Cuba, volto a ela via RSF, que está assinalando os cinco anos do “Setembro Negro”, episódio de repressão que transformou a ilha dos Castro na segunda prisão do mundo para jornalistas, com a detenção de 27 profissionais que foram condenados arbitrariamente a penas que vão de 14 a 27 anos de prisão. Dos condenados, 19 ainda continuam sofrendo nas prisões dos Castro em situações que o RSF define como severas. Para avaliar a situação atual, sob o tacão (aparentemente menos pesado) de Raul Castro, a organização enviou uma representante a Cuba na última semana de fevereiro.
Entre os condenados, Ricardo González Alfonso, antigo diretor da revista De Cuba e correspondente da RSF, condenado a 20 anos, voltou para a cela depois de ser hospitalizado em instalações médicas militares da penitenciária de Combinado del Este em Havana. Mesmo após a entronização oficial de Raul Castro, mais três jornalistas foram encarcerados, embora outros quatro tenham sido libertados em fevereiro, informa o relatório do RSF, que confirma que até para os que não estão presos exercer o jornalismo em Cuba continua extremamente difícil.
Entre as ações que a organização está propondo para melhorar a situação dos jornalistas cubanos estão pedidos ao governo dos Estados Unidos para que levantem as restrições sobre comunicação que entravam o acesso dos cubanos à internet e os contatos entre jornalistas locais e suas redações baseadas no estrangeiro. Apela, ainda, às embaixadas européias em Havana para abrir mais suas portas à imprensa dissidente, um pedido que se volta em especial para a França que vai assumir, em julho, a presidência da União Européia.
Mas lembra que nada disso adiantará se Cuba não honrar as cláusulas dos dois Pactos das Nações Unidos que assinou recentemente.
Ao final do relatório da instituição, uma nota triste: “RSF manifesta sua solidariedade a Juan Carlos Herrera Acosta, da Agencia de Prensa Libre Oriental, condenado no Setembro Negro a uma pena de 20 anos de prisão e ainda detido, cuja ex-mulher e filha pereceram em acidente em Guantanamo dia 12 de março passado”.
