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Culpados e confissões

Encontrei na rede, nos comentários a uma materinha sobre Alexandre Nardoni e a mulher, condenados pelo assassinato da menina Isabella, vários leitores que duvidam …

Encontrei na rede, nos comentários a uma materinha sobre Alexandre Nardoni e a mulher, condenados pelo assassinato da menina Isabella, vários leitores que duvidam da culpa do casal, principalmente porque Alexandre não confessou. Gente romântica ou simplória acha que não confessar é sinal de inocência. Não é o que mostram as estatísticas e os estudos sobre criminosos. Grande parte dos piores criminosos morre jurando inocência mesmo que soterrada por provas contrárias.

Flores partidas

No blog da Companhia das Letras, Carol Bensimon diz detestar Jim Jamursh: ele não entende de elipses temporais. O Jim é o rei da elipse, tanto que um crítico de cinema com um nome tão lindo que deve ser pseudônimo, Ederson Nunes, acha “Flores partidas” vazio. Não vou me dar ao trabalho de argumentar que vazio deve ser o coco do Ederson, porque ele não argumenta, só faz afirmações. Então merece o troco. Mas a Carol está reclamando das cenas lentas, ou mesmo paradas. Entendo. Mas, pensando em “Flores partidas”, essas cenas não me incomodam, sinto-as perfeitamente integradas à história, ao clima meio farra, meio velório, como diria o Aldir Blanc. Me canso muito mais com qualquer cena de perseguição de carro ou de pancadaria em que todos os móveis da casa são destruídos. Nessas sim me parece que não acontece nada por vários minutos. São só pra enganar os olhos e os baixos instintos. Em “Flores partidas”, o homem sentado, sem expressão e sem fazer absolutamente nada, é uma pessoa na nossa frente. A gente começa a se remexer na cadeira e por pouco não puxa conversa sobre o tempo.

Letras

Esses dias me perguntaram como sei o que sei de literatura, se não fiz faculdade de Letras e desprezo teoria literária. É simples. Eu leio literatura.

A má fama da poesia

Um trecho, em tradução caseira, do capítulo em que o padre e o barbeiro queimam os livros de cavalaria de dom Quixote:

— Esses — disse o padre — não devem ser de cavalaria, mas de poesia.

E, abrindo um, viu que era A Diana de Jorge de Montemayor. Achando que todos os outros eram do mesmo gênero, disse:

— Esses não merecem ser queimados, como os demais, porque não fazem nem farão o mal que os de cavalaria fizeram. São livros de entretenimento que não prejudicam ninguém.

— Ai, senhor! — disse a sobrinha. — Vossa mercê bem pode mandá-los queimar com os outros, porque não seria de estranhar que o senhor meu tio, tendo se curado da mania dos cavaleiros, lendo esses resolvesse se fazer pastor e andar pelos matos e campos cantando e tocando, ou fazer-se poeta, o que seria pior, porque dizem que é doença contagiosa e incurável.

Expressões

Morrer de amor? Dá pra dizer que é exatamente o contrário: morre-se de falta do dito cujo. Mas as expressões são assim mesmo, vide correr risco de vida, que traz embutido o “perder a”. Vide também como são ridículas as tentativas de correção dessas expressões. Pelo menos pra mim sempre soam artificiais.

Sutilezas da língua

Talvez seja apenas impressão minha, mas acho a palavra espanhola “sospechoso” muito melhor que a portuguesa suspeito. “Sospechoso” me parece mais suspeito, entende? Claro que se formos traduzir literalmente seria suspeitoso, mas, francamente, suspeitoso não dá pra levar a sério. Por quê? Não sei bem, é como se fosse uma suspeita falsa. Suspeitoso me parece uma palavra muito “sospechosa”.

Autor

Ernani Ssó

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