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Curta-metragem com moscas

Tarde, redação do jornal, rotina, fatos distorcidos a favor dos aliados do patrão, daí um branco: não sentiu mais nada. Uma lâmpada se apaga, …

Tarde, redação do jornal, rotina, fatos distorcidos a favor dos aliados do patrão, daí um branco: não sentiu mais nada. Uma lâmpada se apaga, permanece quente por um tempo. Ele não: um gelo.

Miguel, 27 anos, editor de política, amante da mulher do melhor amigo. Se tentasse, lembrava.

Foi embora sem uma palavra.

Em casa, o quarto: mesmo cenário há quatro meses, desde a mudança depois de se separar da Rosa. Colchão direto no assoalho. Ao redor, cinzeiro transbordando, revistas, jornais, mala meio destripada, rack com computador, roupas usadas numa cadeira. Quarto grande, sombrio, paredes manchadas – por isso tudo parecia maior.

Estirado no colchão, olho no teto, horas e horas. Velha de cima não ensinou papagaio a falar, aprendeu a grasnar. Adolescente da direita com guitarra novinha: nasci pra música. O resto: a maré das televisões.

Foi ao banheiro – descarga estragada. Foi à cozinha beber água – louça suja, restos de comida, moscas varejeiras. O telefone tocou na sala. Atendeu – uma culpa sem nome se não atende. Engano.

Voltou pro colchão.

Sem pensar em nada, releu mesmo jornal pela quarta vez. Então o zumbido das varejeiras, cada vez mais alto. Miguel teve um começo de tontura. Fechou os olhos e se viu deitado, nitidez de doer: uma caveira num leito fervilhante de vermes.

Abriu os olhos de susto, gemido, mão no peito. Achou que uma veia tinha arrebentado.

Bernard Shaw

Disse algo tipo “se você quer dizer à verdade às pessoas, divirta”.

Blog da Boitempo

Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor da USP: “e que isso poderia ter os levado a confirmar sua crença em ato”. “Ter os levado”? Tenho visto que muita gente comete esse tipo de barbaridade, não só nas caixas de comentários, mas em jornais e até em livros. O que houve com o velho e bom “tê-los levado”?

Eu não tenho medo nenhum de violar a gramática, quando as opções que ela me oferece soam mal. Jamais escrevi “sê-lo”, por exemplo. Ou “pô-la”. Mas o que dizer de um “ter os levado”? É como dizia o Mario Quintana, erram de um jeito tão complicado que era mais fácil escrever certo.

Memórias de um prosador

Primeiro, a poesia, depois o conto e aí, como tudo falhou, o romance – essa é a ordem natural, certo? Não no meu caso. Primeiro, tentei o romance, aos onze anos de idade. O fato de ter desistido na terceira linha, não importa. O estrago já estava feito.

Então parti pro conto, desconfio que como uma espécie de aquecimento. Mas, duas e três, voltava ao romance, às vezes com temeridade, ou não é temerário um romance cômico aos quinze anos? Foi necessário mais um tempinho pra que eu, com a maior inocência ou desfaçatez, me dedicasse aos versos. A comichão durou dois verões e me serviu pra arrumar duas namoradas. Nunca maus versos deram tanto lucro.

O credo de Turguêniev, Henry James, Conrad e outros

O maior dever moral de um escritor é escrever bem. Tou nessa. Agora, pra eu não perder tempo quebrando a cabeça, me digam o que é escrever bem.

Deu na Zero Hora

Carol Bensimon, numa crônica indignada com as loucuras dos motoristas, conclui que “se sensibilizar as pessoas é uma utopia, punir deveria ser uma obrigação. De preferência, antes que as tragédias aconteçam”. Muito bem, cara Carol, mas como punir antes que aconteça? Seria preciso os videntes do Philip K. Dick, no filme aquele do Spielberg.

Dicionário do mau digitador

Saltitetante. Perdão, leitores, isso é ressaca do carnaval. oOo Percebreu. Se dar conta da escuridão. oOo Cesticismo. Total descrença nas cestas, talvez em jogos de basquete. oOo Semântrica. O mantra dos linguistas. oOo Respostars. Respostas brilhantes. oOo Pararalisação. Nó na língua.

Autor

Ernani Ssó

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