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Da maldição da memória

Onze e meia passada da noite, eu parada na sinaleira da esquina da Mostardeiro com a Perimetral e a Goethe, morta de medo, aquele …

Onze e meia passada da noite, eu parada na sinaleira da esquina da Mostardeiro com a Perimetral e a Goethe, morta de medo, aquele breu no Parcão à minha esquerda.

Breu?

Mas não é que uma cabeça, quase um busto completo, refulge no escuro, bem naquele bico de parque, em cima de um pedestal, olhando o vazio. Branca. Uma cabeça branca. Goethe. O pedestal em meio a um colchão de hera.

Esqueço o medo e fico matutando: quem é esse senhor, dono do pedaço, nome na rua, no monumento, presença materializada? Sim, eu sei quem ele é. Me deu muito trabalho, uma ocasião, quando fui assistir Fausto, na Terreira da Tribo, no tempo em que os teatreiros do Oi Nóis Aqui Traveiz viviam, literalmente, naquele pedaço de mundo fascinantemente estranho da José do Patrocínio. Onde, hoje, tem um bar dos habitués da Cidade Baixa.

Li aquele calhamaço de Fausto, de cabo a rabo. A primeira parte, li com devoção. A segunda, sinceramente – que tédio.

Mas duvido que noventa e nove por cento dos que passam por ali e olham aquela cabeça branca perdida no meio de árvores, poeira levantada pelos malhadores e corredores de plantão e hera, saibam quem é Goethe. Como viveu. O que fazia. Por que raios está naquele lugar e dá nome à rua em frente.

Semana passada, em meio a um grupo de estudantes universitários de excelente desempenho e QI, entusiasmada por estar em meio a um dos deslumbrantes cenários do Jardim Botânico, falei que a gente podia fazer pose, para uma foto, como o pessoal do Hair.

Silêncio! Olhares!

Hair, sabem? Aquele filme? Hippies… a peça que protestava contra a guerra do Vietnã… Os cabeludos que não tomavam banho… Paz e Amor…

Não? Nada? Nem uma referenciazinha?

Ninguém, do grupo entre 24 e 26 anos, sabia.

E Hair, meu bom Deus do tempo, não foi no século 15:  foi ONTEM! Explicar o quê?  Para quê?

Quando vinha eu pela noite porto-alegrense e dei de cara com a cabeça de Goethe no Parcão (que nunca, jamais, em tempo algum, me chamara a atenção como ontem), eu acabara de deixar minha filha (sim, minha cara Márcia Martins, eu também carroceio filha e ela não é mais adolescente, não, para festas e barzinhos – prepare-se) num lugar chamado Bat Macumba. Na João Alfredo.

Na ida, comentei, entusiasmada (de novo, a boba) sobre o nome do bar, com certeza homenagem a uma música de Gil que foi (é) ícone de uma época, de um movimento, uma poesia com desenho concretista. Comentário mais que concretista do interlocutor: “pois é, diz que cada dia é temático, pra um autor de música brasileira”.

Pô, legal isso, pensei. Baixa o pano, por favor. E fecha o teatro! E fecha mesmo porque, dia seguinte, eu ficaria sabendo que o lugar é tão, mas tão ruim, que tem pista inclinada. E batedor de carteira agindo na maior sem-cerimônia!

Então, temos esta cidade eclética, que pernosticamente dá o nome de um sujeito que levou praticamente a vida toda para completar sua recriação do mito de Fausto a uma rua de um bairro tido como classe média. E, me dei conta há pouco, porque comecei a circular também há pouco pelo local, esta mesma cidade esconde, embaixo de uma elevada, o nome de um dos maiores e criativos poetas e divulgadores das raízes deste Estado – Jayme Caetano Braun.

Uma placa, ali, a seco, no meio da poluição, no que foi uma rua que já teve casarões exemplares em meio a jardins de pobre olhar do portão e arregalar os olhos, esta tal de avenida Carlos Gomes.

É isso que Jayme virou. Placa. Placão, é verdade. Melhor que nada, dirão. Se tem busto ou cabeça do Jayme? Não. Felizmente.

E o que o iguala a Goethe? Francamente? Acho que o desconhecimento, a seu respeito, da maioria, em especial das nossas novas cabeças pensantes que devem andar ensandecidas com tanta revista falando de um tal Machado de Assis por estes dias que correm.

Autor

Maristela Bairros

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