No Brasil, existe uma teoria de que o ano só começa efetivamente depois do Carnaval. Independentemente do período oficial que os quatro dias de folia ocupem, nos meses de fevereiro ou março. Pensar que a economia vai girar, que o País vai decolar e que a vida nas cidades ganhará novo movimento antes das festas carnavalescas é desaconselhável. Só depois que os blocos de rua ocuparem as vias dos bairros, que os salões dos clubes ficarem lotados de confete e serpentina, que as escolas brilharem nas avenidas, o ano terá o seu começo propriamente dito.
É o que vigora há muito tempo nesta terra. Mas será que tal premissa funciona num ano que nasceu atropelado e com aparência de ano velho? Será que podemos esperar alguma normalidade (só uma observação da autora: peguei um ranço desta palavra) de um 2021 feio e bobo? O que nos promete um ano que sucede o jamais sonhado 2020, tomado pela pandemia, marcado pelo isolamento e pontuado por gestos execráveis de egoísmo de um bando de pessoas sem nenhum grau de empatia?
Queremos de fato que este 2021 se inicie? É o momento de dar a largada neste novo ano para sustentar a teoria de que tudo só ocorre mesmo depois do carnaval? E se respaldados pela ideia de que não houve carnaval em função da Covid-19 – não teve desfile de escolas de samba, as festas estavam proibidas e as aglomerações também – jogarmos o início do ano para quando realmente o carnaval chegar?
Como já sugeriu – não exatamente com este objetivo – Chico Buarque na música “Quando o carnaval chegar”, tema do filme de mesmo nome de 1972, não será menos traumático permanecer “só vendo, sabendo, sentindo, escutando” sem nada falar? Porque ao ler nos jornais que o Brasil já soma mais de 239 mil mortos vítimas do Coronavírus não é melhor continuar adiando a alegria abafada e seguir se guardando para quando o carnaval chegar? E ignorar as aglomerações que não deveriam acontecer, mas pipocaram em vários cantos do Brasil no tal carnaval que não existiu e que certamente resultarão em números mais assustadores de mortes em 15 dias?
Desculpem leitores e leitoras se o texto é mais amargo, mais ácido e menos esperançoso. Talvez não queira mesmo que 2021 se inicie. Depois de 339 dias no mais rigoroso isolamento, de saber que ficarei mais um longo período sem ver meus afetos familiares (porque a irresponsabilidade com a compra de vacinas é um imenso desrespeito com a população e a minha vez na fila da imunização fica mais e mais distante) e de ler notícias de festas e mais festas que estão proibidas em todo o Brasil disseminando o vírus, mas que ocorreram, confesso minha pouca fé na capacidade de compreensão das pessoas.
Enfim, foi dada a largada em 2021. É inevitável. É triste saber que teremos mais meses com famílias chorando pela morte de seus entes diante de tanta irresponsabilidade na falta de um plano eficaz de vacinação. É desolador saber da retomada das aulas presenciais, expondo estudantes ao risco de contágio e propagação do vírus. É preocupante pensar no adoecimento dos que cumprem o isolamento e mostram sinais de saúde emocional abalada, debilitada e com um extremo cansaço.


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