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Dashiel Hammett – 120 anos do detetive durão

Dashiel Hammett nasceu em 27 de maio de 1894. Acho que vale a pena lembrar. Hammett, o criador dos detetives durões, também foi um …

Dashiel Hammett nasceu em 27 de maio de 1894. Acho que vale a pena lembrar. Hammett, o criador dos detetives durões, também foi um detetive durão. Tinha inclusive marcas nas pernas e na cabeça arranjadas em entreveros com bandidos. Mas não era safado como Sam Spade, seu personagem mais famoso, que vemos sempre com a cara Humphrey Bogart. Largou a Agência Pinkerton depois de uma ação em que baixaram o sarrafo nuns grevistas e pegou seis meses de cana simplesmente porque se recusou a abrir o bico para o senador McCarthy. Melhor ainda, não precisava dedurar ninguém, bastava dizer que não sabia de nada. Romântico recolhido, admiro gestos desses.

Outra coisa simpática sobre Hammett: numa festa, quase deu umas porradas no Hemingway, porque ele falava mal do Fitzgerald. Não sei se Fitzgerald merece uma defesa heroica, literariamente falando, mas que Hemingway merecia umas porradas, merecia. Há bons exemplos de que era uma péssima pessoa, como quando botou vidas em risco com brincadeiras estúpidas durante a Guerra Civil Espanhola. É triste, sim, mas talento não escolhe caráter.

O falcão maltês

Nos contos longos, ou novelas curtas, sobre o detetive anônimo e gordo da Agência Continental, Hammett não fica naquela prosa que usa nos romances, tipo roteiro, que dá gestos, caras e bocas dos personagens sem nenhum pensamento ou emoção. Que essa prosa seja conhecida como realista ou objetiva apenas comprova a total falta de sentido das palavras realidade e objetividade.

Há laconismos e laconismos. Um texto não pode estar cheio de vazios, de omissões. Tem é que estar com as coisas invisíveis, embutidas. O silêncio é bom quando o leitor adivinha os fantasmas andando, não quando ele encobre a inépcia ou a preguiça do escritor.

Maiores e menores

Há dezenas e dezenas de escritores melhores que Hammett, mas ele criou o detetive durão, personagem que tomou conta da imaginação de multidões no século 20. Mais: trata-se de um personagem que acabou independente do autor, como se não devesse nada a ele. Não são muitos. Basta ver a história da literatura: Aquiles, Ulisses, Jocasta e o filhinho da mamãe, Quixote e Sancho, Hamlet, Sherlock, Drácula, Lolita e alguns outros.

Grande golpe

Todo esse papo é porque andei relendo duas antologias: A ferradura dourada e O grande golpe. A primeira coisa que chama a atenção nesses contos é que a violência, a crueldade ou falta de sentimentalismo do detetive e o humor negro têm uma intenção realista. A tropa de imitadores do Hammett coreografou isso tudo. Estilizou tanto que virou desenho animado, Tom e Jerry. Aí o cinema deu o tiro de misericórdia: efeitos especiais alucinantes, a violência como espetáculo, mais a repetição infinita. Não bastava? Tarantino, em vez de ir ao psiquiatra, resolveu filmar.

A segunda coisa que chama a atenção é que o melhor do Hammett ainda pode ser usado como antídoto a esse lixo cinematográfico atual.

Cavalheiros

Philip Marlowe, o detetive do Raymond Chandler, não chega ao ponto de guardar o revólver para que o bandido tenha as mesmas chances na hora do duelo, mas é um cavalheiro. O Continental Op, do Hammett, numa briga chuta, morde, dá coronhaços, atira pelas costas. Nunca banca o herói. Depois de atirar na bandida linda que confiava na bondade dele para fugir, diz: o que você esperava de um sujeito que roubou a muleta de um aleijado?

Eu prefiro Chandler como escritor, por causa do estilo. Mas o personagem e os enredos dele são uma involução em relação a Hammett. Quanto à Agatha Christie, bem — deixa pra lá. Estamos falando de crime e de literatura, não de jogos de salão.

Lew Archer

As primeiras aventuras de Archer são uma imitação canhestra do Chandler. Mas aí Ross Macdonald foi pro divã do psicanalista. Pode ser duro engolir essa, mas depois de fazer análise ele se tornou um excelente romancista.

Os casos de Archer não têm o sabor das ruas que sentimos em Hammett e muito pouco das quixotadas do Chandler. Com Archer estamos às voltas com crimes de família, numa investigação mais psicológica que policial. É outra praia.

Autor

Ernani Ssó

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