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Daudt: 20 anos de ausência

Este tem sido um verão de muita mexida em livros e material impresso que atulha minha casa. Esta semana, desencavei do fundo de um …

Este tem sido um verão de muita mexida em livros e material impresso que atulha minha casa. Esta semana, desencavei do fundo de um armário a minha coleção de revistas Imprensa e deixei à vista, para ir lendo as que nunca foram lidas e reler as que já o foram. Ontem à noite, por acaso, deixei ao lado da cama a edição número 11, ano 1, que custava 250 cruzados, e que foi publicada em julho de 1988. Na página 32, me deparo com uma foto de José Antônio Daudt, com seu tradicional blusão de lã cashemire de gola alta com que tantas vezes o vi e a legenda: Daudt, assassinado: teses sem comprovação. A matéria intitulada Um Culpado a Qualquer Custo tem por linha de apoio Sensacionalismo e confusão marcam a cobertura da imprensa gaúcha sobre o assasinato de um deputado.

Revi todo aquele sábado em que acordei com as rádios enlouquecidas tentando informar e mais que isso, compreender, a morte do jornalista que era, então, deputado. O que se seguiu, todo mundo sabe: a acusação de Antônio Dexheimer, a devassa na vida pessoal de Daudt até as últimas baixezas, sem piedade, o julgamento coberto integralmente pela mídia e o até hoje mistério: 20 anos depois, a se completarem no dia 5 de junho próximo, não existe um culpado pagando pelo fuzilamento do jornalista à frente de seu apartamento na Quintino Bocaiúva.

Trabalhei com Daudt em começo de vida profissional. Eu havia feito um frila para a Zero Hora na cobertura das Olimpíadas do Exército, a convite do Telmo Zanini. Ninguém queria pegar o trabalho, já que ele se associava ao regime militar. Eu e Eva Caparelli, loucas por um estágio, aceitamos. A mim, coube acompanhar as provas de tênis e hipismo. Coi Lopes de Almeida era o editor de Esportes, então, e – coitado – precisava de muita paciência (que ele quase não tinha!) para esperar meus textos catados na máquina de escrever, em meio a minha inexperiência e ao nervosismo de debutante.

Encerradas as Olimpíadas, Luiz Figueredo me acolheu, naquele aquário em que funcionava, no terceiro piso do prédio da Zero Hora, parte da Rádio Gaúcha. Como não havia vaga para redatora, o gordo Fig me encaixou como assistente de produção do Sala de Redação, então um programa de debates jornalísticos que o Cândido Norberto apresentava e que tinha apenas um dos espaços dedicados ao esporte. Daudt me acolheu com aqueje seu jeitão entre carinhoso, debochado e impulsivo. Ainda o vejo, com suas calças boca de sino de veludo cotelê, caminhando rápido, sempre com um sapato social de qualidade, camisas bem passadas, um casaco de couro, o cabelo ondulado, que caía sobre a testa, o olho azul muitas vezes avermelhado pelas noitadas num bar do Hélio Wolfrid que ficava na João Pessoa, o Ressaca.

Chegava sempre cedo, olhava o material que eu havia selecionado, pegava tudo, botava embaixo do braço e ia para o estúdio. Por ter um gênio explosivo que depois ficaria bem conhecido, em seu programa na então TV Difusora, em que batia na mesa com a palma da mão para chamar atenção para algum assunto, brigava bastante com Cândido. Um dia, ele ganhou seu próprio programa, o Tribuna Gaúcha, das oito às nove da manhã, na rádio. E me levou junto, como produtora, com o que fiquei acumulando a tarefa do Sala de Redação e a do novo programa. Até que Daudt exigiu que eu ficasse apenas com o Tribuna.

Sempre chegou uma hora antes, banho tomado, perfumado, fumando seu cigarrinho, às vezes não querendo conversa, outras brincalhão. Gostava de ficar sozinho, sentado diante da mesa com recortes de jornal, pautas sobre entrevistas, gravações, entradas ao vivo dos repórteres. Volta e meia, passava o braço sobre meus ombros e dizia, antes de entrar no ar, “vamos lá, guriazinha”. E eu, que cedo aprendi a respeitar e, quantas vezes, temer meus superiores, o seguia, feliz da vida, por ter ser produtora de um cara que fazia tanto sucesso como jornalista combativo e, também, com o mulherio.

Daudt, como se sabe, tinha muitas fãs. Uma delas ia à rádio todas as semanas, vinha de Canoas, era uma moça simples. E lhe trazia presentes, como uma alfomada de crochê em que ela derramou litros de perfume e ele, num daqueles gestos de supremo desprezo e deboche, jogou fora.

Um dia, deixei no quadro de avisos um desabafo sobre uma injustiça que haviam feito com meu pai, na sua sapataria, e o tom deveria ter sido muito dramático, porque Daudt telefonou para a casa dos meus pais para saber como eu estava. Tempos depois, no meu aniversário, apareceu, de surpresa, na minha casa, junto com Ubirajara Valdez, que era nosso repórter, recém chegado de São Paulo. E ficou muito chateado porque as amigas que estavam na minha festinha caseira haviam se reunido numa outra sala, sem conversar com ele.

Fiquei no programa mais de um ano, até que me enchi da rotina estafante de receber gente que ia reclamar desde a virgindade perdida da filha até uma casinha para morar, e resolvi sair. Quando avisei da minha decisão, Daudt radicalizou: me deu a chave de seu fuscão e me botou a dirigir até, primeiro, uma casa de acolhida a deficientes, que ficava na Getúlio Vargas. Depois, para completar a aula, me mandou seguir para a Restinga Velha, para ver a denúncia de que um casal de cegos saía para mendigar e deixava duas crianças acorrentadas ao barraco. Chorei muito, quando cheguei em casa. Mas desisti do que Daudt dizia ser minha missão. Não suportava mais.

Nossos caminhos se separaram ali. Nunca mais o vi pessoalmente. Até que ele virou notícia da forma mais trágica possível. Infelizmente, ele, assim como Bira, Figueredo, Coi, se foi. Sem, ao menos, ser vingado pela vida, que lhe negou até a punição do criminoso que o matou de forma bárbara, que ele não merecia.

Autor

Maristela Bairros

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