Há tempos que, de tempos em tempos, surgem safras de pessoas geniais. Estou lendo o livro “Renato Russo” e falo aqui de um deles, o líder do Legião Urbana. A década de 80 para o rock nacional foi pródiga, lançando inúmeras bandas de grande talento, como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial. É curioso como o mundo funciona neste sentido. Parece que sai uma fornada de gente boa.
Neste mesmo livro que estou lendo, fica claro o quanto o ser humano pode ser o lobo do próprio ser humano. A ditadura militar, com o golpe de 64, estraçalhou com a democracia que havia e com a crescente participação, consciência e entendimento políticos que havia. Os estudantes, o movimento estudantil eram participativos, críticos, atuantes e – principalmente – representativos. Não que o movimento estudantil não seja participativo hoje, mas ele é muito menos representativo. Infelizmente. E como resultado da ação repressiva e inconsequente dos militares na época. Atacaram como poucos a democracia e o país, de forma a desestruturá-lo. Não tenho receio em afirmar que, ainda hoje, o Brasil não se recuperou (não sei se algum dia se recuperará) do estrago causado pela ditadura militar.
Mas o Brasil é pródigo em estrelas, em geração de talentos. Vi há alguns dias o DVD do Chico Buarque – Cidades, bem como o especial sobre Tom Jobim. Dois gênios da raça. Chico, no início do DVD, é perguntado pelo entrevistador sobre a razão de ter batizado de Cidades. Ele começa uma explicação toda pomposa, tenta encontrar sentido no que ele está dizendo e termina por dar uma bela risada e dizer que não tem a menor ideia do por que chamou o DVD assim. É claro que ele sabe que há um sentido em tê-lo batizado de Cidades, mas ele consegue tratar o assunto de forma menos intelectualizada. Como diria o Freud, às vezes um charuto é só um charuto.
Sobre Tom Jobim, fica ainda mais difícil falar sem dizer de novo o que já foi dito, sem escrever o que já foi escrito. Gênio. E, além de seu talento ímpar, fez algo muito importante: colocou uma brasilidade gigantesca em suas obras, falando de nossa natureza, das nossas belezas, do Brasil enfim.
Comecei a escrever sem ter tema definido para a coluna, com a velha dificuldade do papel em branco (está bem, não é mais papel, mas tela em branco). Relacionei, meio sem e meio por querer, três artistas que deixaram (e deixam a cada obra nova, no caso do Chico Buarque), sua marca eterna e fantástica na cultura brasileira, no Brasil, no nosso dia-a-dia. “Cotidiano”, do Chico Buarque, por exemplo, é de uma simplicidade e beleza impressionantes. A marca do gênio é esta: olhar para algo, dar-lhe ao mesmo tempo poesia, síntese, beleza e simplicidade.

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